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Liberdade para envelhecer
Em forma de crônica, sob o título “Quando me tornei invisível”, circula pela internet relato hipotético, porém angustiante, que bem poderia ser de milhares ou milhões de vovós, que gostariam de estar rodeadas por seus descendentes, ainda que um tanto barulhentos, mas se sentem abandonadas; abandono mais cruel, pois não estão fisicamente sós, porém deixadas de lado, enquanto a vida gira ao seu redor. É como a solidão no meio da multidão! A hipotética vovó começa por dizer que se perdeu no tempo, pois primeiro fizeram desaparecer suas referências dentro da casa, como as grandes folhinhas, onde se marcavam os dias mais importantes para a família; também os quadros de santos, dos eleitos mais “íntimos” nas devoções e tradições no suceder das gerações. Do quarto espaçoso, confortável e bem arejado, ela foi transferida para outro menor, insuficiente para guardar todo o passado simbolizado por coisas, que os outros diziam “trastes velhos”. E assim também se foram as referências sentimentais, em nome do crescimento da família. Por fim a vovó foi parar no cubículo, localizado nos fundos do pequeno quintal que, em seu tempo de “dona de casa”, era o quarto de despejo, depósito de coisas velhas, quebradas ou inservíveis. Ela diz que nem se preocuparam em tapar com vidro, o buraco da vidraça por onde o vento vai visitá-la nas noites mais frias, levando-lhe mais força às dores reumáticas. Se não mais tem seus ícones, pelo menos possa escrever, mas não encontra ou não lhe dão lápis; ou, este simplesmente, desaparece quando toma posse de um. Tudo converge para o seu esquecimento em vida, como baú velho, que continua lá no canto, mas ninguém mais lhe dá atenção. Chega a dizer: “sem que ninguém se desse conta, eu me fui apagando também”. E foi a partir daí que percebeu ter sua voz desaparecido; não para si própria, pois ela a ouvia bem, mas para os demais da casa, que a não respondiam ao dirigir-lhes a palavra. Era como se mantivesse a boca fechada. Nem um resmungo mereciam seus comentários, até que um dia, percebeu que, além de inaudível, tornara-se também invisível. Não lhe esbarram, ou nela tropeçam, como nos sói acontecer, quando algo não vemos e, inconscientemente, tentamos ocupar espaço já ocupado. Observa que as pessoas, enquanto conversam, não olham para ela; tais como cegos, olhar vago além da imagem à frente. Sem netos porque, em nome da saúde, já lhe proíbem até carícias a eles, a vovó se sente cada mais longe do seus, mesmo estando perto. Aguarda tão somente o momento de partir para a viagem sem volta. O quadro descrito pode ser verdadeiro e, de fato, o é para muitos dos que ultrapassam a barreira convencional do tempo em que se tornam velhos, colocados à parte, tratados como estorvo. Mas, se os circunstantes assim procedem com o ancião, livre não está este de culpa em todo o processo do envelhecimento, que não começa aos quarenta, aos cinqüenta e nem aos sessenta, mas ao se abrirem os olhos para a vida. Tratou ele com respeito os que se encontravam no mesmo estágio em que agora está? Não lhes sonegou direitos? Ao se aproximar a fase crítica, o candidato ao abandono também se acomoda, aceita, sem contestar, imposições e chega a acreditar que não é mesmo capaz de realizar aquilo que lhe proíbem. E o próprio texto da hipotética vovó denuncia o comportamento “autoentreguista” do idoso, mesmo antes de entrar na fase mais frágil da velhice: “... eu me fui apagando também”. Apagam-se os que encaram a velhice como estágio inativo, povoado de doenças, e não se preparam para vivê-la como soma de experiências, de conhecimento acumulado, enquanto transferem, eventualmente, um pouco do que aprenderam. Cada um tem a velhice que construiu ao longo da vida!
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