Era uma vez uma loira. O programa, americano, prometia um ¨reality show¨. A prova, uma das muitas humilhações às quais são submetidos em busca do Graal da celebridade instantânea os novos Lancelots, consistia em deslizar por uma corda a vários metros de altura sobre um manto dágua. A jovem de 24 anos carregava um peso extra: Duas salientes montanhas de silicone foram vencidas pela gravidade. O mergulho foi visto em tempo real e o que se seguiu fez a maravilha dos telespectadores dessa nova forma de pecado:
- Estourei o silicone!
Não era piada da loura. A equipe de filmagem e os colegas de desventuras caíram no riso diante da tragédia não programada. A ¨talentosa¨ e futura capa de alguma revista masculina franca e aberta a prodigiosas beldades do tipo foi retirada do programa para curar-se dos vários hematomas.
O incidente, não desejável, há de lhe fazer fruir os bons ventos da sorte, que sopra onde quer e a bem de quem prouver, dando-lhe uma cobertura da mídia muito superior à que lhe traria os louros do primeiro lugar da difícil empreitada. São ardilosos os caminhos do destino que chega àquele que se coloca prontamente na jornada que seus sonhos hão de querer.
O flagrante expõe e mostra algumas nuances de nossa contemporaneidade que o futuro há de nos perdoar, e talvez até nos olhe com certa e cândida nostalgia: ¨Como eram tolos os daquele tempo.¨ - Dirão dentro de uma pilha de dezenas de anos. Também hoje não olhamos até com certo asco e, por que não, com ojeriza negativa os massacres que se acumulavam sobre as areias das arenas romanas?
Três características de nossa cultura saltam aos olhos diante da queda da candidata à personalidade: 1) o próprio culto à celebridade; 2) o exagero na corrida por atingir padrões estéticos artificialmente fabricados; 3) a superficialidade dos muitos programas da TV.
O leitor do futuro se deliciará com nossa ingenuidade ao cultivarmos ídolos que não chegam nem a ser de barro, pois as esculturas de barro ainda duram algum tempo, são mesmo de areia, de areia pura, sem nenhum artifício químico que a faça perdurar por mais alguns dias. Dará risada de nossa inconstante busca para atingir padrões que agradem os olhos dos outros? Quanto esforço empregam diversas pessoas para mudar a forma do corpo, do rosto, do cabelo, sendo que não se aprimoram na busca de padrões de humanidade, de dignidade, de cortesia, do simples servir com distinção e justiça à sociedade.
Quanto à cobertura da mídia, nem vos falo. Os meios de comunicação buscam a audiência, pois esta traz a publicidade que embute os anunciantes e o seu dinheiro. Quantos, em nossa Pátria-Mãe-Gentil, se deliciariam em assistir no horário da novela a uma sinfonia, ou à encenação de qualquer uma das clássicas obras de Shakespeare? Logo alguém da casa diria:
- Muda de canal, pô! Que coisa mais chata!
E, no canal da banda ao lado, se veria uma dúzia de loiras, dançando e rebolando em um ¨Reality Show¨ que escancara a vulgaridade de nosso tempo. Vencidos pelo cansaço, e pelo peso das contas a pagar, e da necessidade de sobreviver, o casal da sinfonia aposenta a cultura e decide, também, exibir loiras e rapazes, dançando e buscando conquistar o prêmio máximo nas arenas modernas. Ainda amamos o pão, o circo e a humilhação a que se expõe o outro. Resta ao telespectador sabido desligar a Tv, ou procurar um filme, um documentário e, se for ainda mais esperto, lerá um livro.
Quem sabe o futuro nos perdoe, quem sabe o futuro nos entenda ou, sendo muito otimista: Quem sabe o futuro aconteça!
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