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Você está em Crônicas e Poesias

Maria Laurentino

[ Maria Laurentino ]
Há quase cinco cursando a Escola Livre de Literatura, na Casa da Palavra, onde venho intensificando a minha escrita.

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Era uma vez uma goiaba

Naquela goiaba, a vida era intensa. Embora a sua população se achasse muito evoluída, era muito retrógrada. Coitado do cidadão que tivesse um pensamento diferente daquele que conservavam desde os primórdios.        

Ainda achavam, e nisso fincavam pé, que a goiaba era um todo, uma massa, o Universo era uma massa, pois que a goiaba era o Universo.           

O Universo era um todo cheio de túneis por onde eles andavam, e o gostoso disso é que, quando eles comiam, o túnel ia aumentando na frente deles.           

“Esse túnel é infinito, tão infinito, que para seguirmos adiante, temos que nos abastecer de comida. E como é bom comer! Quanto mais comemos, mais evoluímos, prova disso é o caminho que cada vez mais se estende a nossa frente”.           

Um dia, um cidadão de pensamento diferente veio com uma novidade: “A goiaba não é infinita e é redonda”.           

Pobre coitado! Teve de voltar atrás no que dissera, pois estava prestes a ser queimado numa fogueira: “A goiaba é uma massa, um todo, e é infinita”.           

Passou-se muito tempo, muitos anos, séculos. Um outro cidadão de pensamento diferente veio com outra novidade: “A goiaba é redonda e não é infinita! Do jeito que a destruímos, logo, logo, ela desaparecerá, como uma bola de sabão no espaço, ou ainda, cairá, não sei para onde, mas cairá”.           

E disse ainda mais: “Temos que cuidar para que isso não aconteça, vamos fazer um rodízio, comemos dia sim, dia não, aí a goiaba levará o dobro de tempo para cair. Depois de acostumarmos a comer dia sim, dia não, poderemos estender o jejum para dois dias; então comeremos dia sim, dois dias não, aí a goiaba dobrará de tempo para cair e vamos aumentar o jejum dia a dia, gradativamente. É a única esperança de vida para o nosso mundo”.           

“Alto lá, alto lá, aqui ninguém vai ficar sem comer só porque um louco disse que isso tem que ser assim!”           

Mas o louco não quis voltar atrás e foi fuzilado, para não botar ideias na cabeça dos outros.           

Passaram-se os tempos. A população da goiaba continuava comendo, comendo, e segundo ela, evoluindo, pois o túnel aumentava na sua frente e os indivíduos estavam cada vez mais gordinhos.           

De repente, outra novidade: um indivíduo afirmou que viu um “extragoiaba”, ou seja, um ser que não habitava a goiaba. Esse ser era grande, tinha asas e voava pelo espaço.           

“Esse cara é  um louco! Fogueira nele!”             

Outro indivíduo estava tão veemente em sua comilança, que cavou um túnel tão grande a sua frente, e atingiu a casca da goiaba. Aí ele olhou pelo buraco que ficou na casca e viu outras goiabas, e também um extragoiaba, que voava entre as goiabas.“Eu vi! A goiaba é redonda! Existem outras goiabas! Um extragoiaba voava entre elas!”Mas ninguém acreditou e botaram aquele louco num hospício.Depois disso, a população, ainda mais ávida para comer e para seguir o túnel, nemse deu conta que a goiaba, de repente, partiu-se e caiu...!No chão, a goiaba espatifada, e os bichos da goiaba ainda tentando comê-la.O sol esquentava o chão, e os bichos iam morrendo, cozidos pelo calor.Enquanto isso, na goiabeira, a mosca voava entre as goiabas, pousando nelas ebotando seus ovos, dos quais em breve nasceriam larvas, formando populações nas goiabas.  Que pretensão os bichos da goiaba pensarem que eram os únicos e que aquela goiaba era o universo! 

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