O lado masculino de Maria se chama Eu Tarzan. Ele nasceu no mesmo dia que ela.
Naquele dia, três ou quatro horas após ela ter nascido, o seu pai, depois de ter trabalhado o dia todo na roça, veio para casa com uma fome de leão e com o diabo no corpo. A janta não estava pronta, e por culpa de quem?
De quem? Ora, da Maria, é claro! Pois não foi ela quem inventou de botar o focinho para fora justamente naquele dia? Justamente naquele dia, que o pai veio para casa com aquela baita fome e com o demo no corpo! Não sobrou ninguém em pé! Ou melhor: não sobrou ninguém em cima da cama e nem no chão em pé!
A tia de Maria, que ainda era menina e estava na casa para ajudar a mãe da Maria, viu todo mundo desacordado no chão e pensou: Ele matou todos! Deixa eu fugir para não morrer também.
Mas disso Maria não se lembra, felizmente, pois ela era muito pequenininha. Mas lembra de uma outra vez que o Eu Tarzan se manifestou. Eles. Ela e o Eu Tarzan estavam para completar um ano de idade. O dono da fazenda onde moravam falou para a sua mãe: A senhora precisa pegar as crianças e ir para casa da sua mãe, hoje mesmo, porque o seu marido é muito violento e eu não posso garantir as suas vidas.
Ela se lembra da mãe carregando-a no colo e levando consigo mais duas trouxas de roupas, amarradas com lençóis. Atrás vinha o seu irmão, nem dois anos mais velho que ela, carregando também uma trouxa menor de roupas amarrada com uma toalha de mesa. Num trilho no meio do mato cerrado.
Seu pai trabalhava para uma portuguesa que criava porcos. Ela lhe disse: Se você quer que a sua mulher volte para casa, tire as crianças dela! Ela vai voltar correndo!
Lembra de seu pai andando no meio do mato, carregando-a no colo e levando seu irmão de cavalinho. O irmão ia xingando o pai o tempo todo: Seu filho da puta, quando eu crescer vou comprar um revórve e vou matar você...! Havia muitas vacas no lugar. Uma vaca queria pegá-los. O pai começou a correr e xingar a vaca, mas ela os cercou! E as outras vacas cercaram do outro lado. Só tinha um precipício que elas não cercaram. Rápido, o pai jogou seu irmão num buraco fundo e estreito e a colocou debaixo de uns pés de guaxumba, dizendo: Não sai daí, senão a vaca te pega, e se ela não pegar, você vai cair no precipício.
Maria não sabia o que era precipício, mas sabia o que era a vaca te pega, porque ela estava tão brava que deu para matutar logo.
Viu o seu pai sumindo, primeiro os pés, depois o corpo. Parecia que a cabeça havia caído atrás do corpo e das pernas no precipício. Ficou com medo, pois ali a gente caía, e ela nem pensava em se mexer de onde seu pai a havia colocado. Ainda com aquela vaca querendo pega-la! A vaca ficou o tempo todo olhando seu irmão dentro do buraco, cavocando o chão, enquanto o irmão gritava: Maria, não sai daí, senão a vaca te pega...! Aquele filho da puta do teu pai! Quando eu ficar grande vou comprar um “revórve” e matar ele. Aquele lazarento!
Seu irmão nunca dizia meu pai. Quando falava com Maria, referia-se a ele como, teu pai, e quando Maria aprendeu a falar, ela devolvia essa espécie de ofensa a seu irmão, dizendo-lhe também, teu pai.
Ela tinha medo até de respirar, para a vaca não ouvir! Viu um passarinho voando, e queria voar igual ao passarinho. Mas nem andar ela sabia! Mas seu irmão sabia! Será que ele sabia voar também? Igual ao passarinho? Ficou então olhando para ver se o irmão saía voando do buraco e vinha pegá-la.
Porém, ele não saiu voando do buraco, e aquela vaca ainda queria pegá-los! Bem, na verdade queria pegar o irmão, que gritava sem parar, xingando seu pai e falando para ela ficar quétinha, senão a vaca pegava. Com isso chamava a atenção da vaca para si, fazendo com que ela não se apercebesse da menina. Não sei se ele tinha noção, com tão pouca idade, do que estava provocando.
Ao anoitecer, a escuridão não a deixava perceber se a vaca já havia ido embora. Mas o irmão continuava a noite toda gritando para Maria ficar quétinha, senão a vaca a pegava. Ela ficou sem mexer um dedo e não dormiu, de medo da vaca, do precipício, e por causa dos gritos.
Quando clareou o dia, a vaca não estava mais lá. O pai apareceu, e os levou, ela no colo e o irmão de cavalinho. Durante o caminho todo, o irmão continuava a xingar o pai.
Depois disso, seu irmão e ela ainda sofreram bastante.
Isso fora só o começo, um aperitivo, diante de tantas coisas que lhe aconteceriam nesse primeiro ano da sua vida. E dos tantos outros que viriam depois, fazendo com que cada ano o seu Eu Tarzan se fortalecesse.
Hoje, o seu Eu Tarzan, assim como ela, já tem uma certa idade. Não tem mais medo de vacas e precipícios.
O Eu Tarzan diz que quem é forte não é ele, e sim a Eu Jane. É ela quem sabe segurar no cipó. É ela quem tem o grito mais forte e mais alto. E quem sabe arrumar a casa.
A Eu Jane por sua vez, diz que o mais forte é o Eu Tarzan. Foi ele quem lhe ensinou a segurar no cipó. Quem lhe ensinou a dar o grito mais forte e mais alto. Foi ele quem construiu a casa em cima da árvore.
O Eu Tarzan diz que sem a Eu Jane, ele não existiria. E a Eu Jane diz, sem o Eu Tarzan ela não existiria.
E de noite, ninguém tem medo de vaca e nem de precipício. A casa no alto da árvore é um lugar seguro onde o Eu Tarzan e a Eu Jane dormem, agarradinhos, o sono dos justos.
Enquanto eles dormem, a Eu Maria vive a sua vida, tranquilamente, procurando realizar tudo aquilo que ainda não realizou.