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Jurandir Araguaia

[ Jurandir Araguaia ]
Escritor goiano. Premiado no Concurso FC do B - Panorama 2006/2007 (www.fcdob.com). Publica textos que tratam com bom-humor o cotidiano, quando a situação permite, e mordiscando universos fantásticos...

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Mulheres, reformas e baratas

Resolvi aproveitar o mês de férias e reformar a casa. Ficarei morando na mesma durante o curso da aventura, com crianças a bordo e tudo o mais, inclusive direito a bronca da esposa pela sujeira. Decididamente não entendo as mulheres, querem reforma, mas não suportam as consequências naturais. Odeiam as baratas, mas não querem o cheiro dos venenos. A incoerência deve vir junto com o pacote visto ter encontrado poucas delas que levam a bom termo uma empreitada do tipo.

A briga com os pedreiros, marceneiros, vidraceiros, começa logo à entrada:

- O Senhor é do tipo que faz bagunça?

- Não senhora. – Nenhum pedreiro digno de assim ser chamado assume que faz bagunça, caso dissessem a verdade, duvido que conseguiriam trabalho.

A minha aventura começou pela escolha dos pisos. Escolher piso e revestimento nas lojas especializadas é o mesmo que experimentar perfume. Você cheira tanto que acaba confuso e não sabe o que vai levar. Acabamos escolhendo um branco com rajados em cinza dando um aspecto de mármore.

- Branco suja muito. – Disse um amigo.

- Branco dá um ar de limpeza. – Disse outro.

Fiquei com a opinião do segundo. A cor da tinta não deu muita polêmica entre minha esposa e eu. Gostamos de cores claras. O problema reside mesmo no custo da mão-de-obra. Não encontrei ninguém que aceitasse o serviço por empreitada.

- Diária sai mais barato, dotô. – Era o que me diziam. Acabei contratando um pela diária só que ainda não começou. Esta fazendo um serviço e, assim que terminar, começa o meu. Era para ter iniciado antes do Natal, mas atrasou e deve começar antes do Ano Novo, assim espero.

Enquanto isso comprei de quase tudo e atrevi-me a pegar de uma massa de PVA para tampar uns buracos que me incomodavam, pois deles vi surgir algumas baratas. Minha esposa entrou em pânico e, literalmente, coloquei a mão na massa. O primeiro buraco levei vários minutos para cobrir totalmente e, naquele ritmo, calculei que levaria um dia inteiro para cumprir minha tarefa. Antes tratei de dedetizar a casa com recursos próprios. Li tudo na Internet sobre a tarefa. Acordei cedo e comprei um remédio que deveria diluir em água.

- É tiro e queda, dotô. – Disse o vendedor. – Lá em casa acabou com baratas, cupins e pernilongos. Um frasquinho desses rende 10 litros...

Fui confiante para casa, depois de comprar um frasco de plástico tipo spray. Totalmente armado, vi que o produto renderia 4 litros. Foi o suficiente. Vi baratas saindo de ralos, frestas em paredes, caixas de gordura e detrás de armários. Morriam após uma lenta agonia sem precisar recorrer ao processo de esmagamento. Minha família quase enlouqueceu com tantas pragas, mas eu estava eufórico:

- Primeiro as baratas, depois o mundo... – Brinquei.

- Meu pai ficou louco. – Disseram as filhas. – O cheiro do remédio fez mal.

Voltei às paredes e aos rebocos. Não saiu nenhuma Capela Sixtina e, ao final, eu estava exausto. Minha esposa não admirou o que fiz. Foi direto ao chão:

- Quem vai limpar essa bagunça?

Fiz cara de menino sendo pego roubando goiaba e aceitei que mulheres, reformas e baratas não combinam...

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