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Maria Laurentino

[ Maria Laurentino ]
Há quase cinco cursando a Escola Livre de Literatura, na Casa da Palavra, onde venho intensificando a minha escrita.

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Tinha um Gambambá no meu caminho

Dona Cidinha teve que ir às pressas a casa da mãe, pois esta estava para dar a luz e o povoado ficava a  léguas de distância.
Não houve tempo de tomar nenhuma providência e dona Cidinha teve que se virar sozinha. Apesar de ser tão jovem, ela já tivera um filho e sabia mais ou menos como fazer.
Teve que deixar o filho chorando no outro quarto, enquanto atendia a mãe.
 O garoto, um bebê de alguns meses de idade, acordou assustado e pelo longo da sua vida nunca mais esqueceu aqueles dias:
  “Naquele dia a minha mãe me deixou dormindo num quarto da casa da
minha avó. Acordei, estava escuro, a minha mãe não estava lá, tive medo, chorei, ninguém apareceu, chorei mais ainda.
Escutei a minha mãe no quarto ao lado, ela falava com minha avó, e esta gritava e gemia, fiquei ainda mais com medo e chorei ainda mais.
 A minha tia, uma meninazinha enxerida, que me ‘enchia o saco’, entrou e começou a falar comigo, chacoalhando aquela lata de botões que a minha avó deu a ela para brincar.
 Eu não parei de chorar, botei força na choradeira. Ela começou a brincar no assoalho com os botões e falava sozinha, mas segundo ela, eram os botões que falavam.
No outro quarto minha mãe continuava falando com minha avó, que continuava gemendo. Depois um gambambá começou a chorar e elas diziam que ele era bonitinho, falaram de umbigo, de pôr xixi nele, pinga, picumã, fumo e o gambambá continuava chorando.
 Até parei de chorar um pouco para ouvir o que se passava no outro quarto, depois botei a boca no mundo, porque tinha um gambambá lá e elas gostavam dele e diziam que ele era bonitinho, fofinho, e não sei mais o quê.
 O pior é que a minha mãe veio, me pegou no colo e eu fiquei todo contente, então ela me levou ao outro quarto e começou a me mostrar aquele gambambá feio e falava que ele era bonitinho, igual a mim, me colocou do lado dele e a minha avó me abraçava  junto com ele; aí eu chorei prá valer, chorei mesmo.
 Fiquei com o ‘saco cheio’ de tanto ouvir falar naquele ‘bicho feio’. Nos dias que se seguiram, ficamos na casa da minha avó porque ela só ficava deitada naquela cama com aquela ‘coisa feia’, e a minha mãe só cuidava dela e dele.
 Depois de tantos dias naquele quarto escuro, ouvi-as falando que ele morreu porque pegou a doença de sete dias.”

 Hoje, esse menino, já homem, sabe que a tal doença de sete dias não era senão o tétano, que acometia os recém-nascidos por causa do picumã, da urina, pinga, fumo, etc, que colocavam no umbigo da criança que nascia.
 Hoje ele também sabe que o nome é cangambá e não gambambá.

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