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Pedro Cardoso

[ Pedro Cardoso ]
É crítico contumaz da inércia da sociedade brasileira nas várias questões de cidadania, especialmente com relação à morosidade vergonhosa das Justiças brasileiras.

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Amigo raro

Milton Nascimento tem razão quando na sua música, Canção da América, diz que “amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves dentro do coração”. Acrescenta que deve ficar do lado esquerdo do peito.A pretensão do astro seria dizer que amigo verdadeiro seria coisa rara e deveria ser preservado de todas as formas e a qualquer preço, com respeito e no limite da ética, sempre de maneira sadia, com muita curtição. Isso seria a parte simbólica da feliz frase. Até aí tudo estaria correto, se a presunção de amizade fosse uma relação própria, cada uma com valores e compromissos próprios. É triste porque é uma verdade literal. Ter amigo não é só raro, como tem tipo, maneira, e o prazo de validade é aquele em que você descobre quanto está valendo materialmente a amizade.

Outros astros afirmaram que o tempo seria o senhor da razão e eis que as duas colocações aos poucos vão se encaixando noutra já batida de que a idade torna uma pessoa mais madura, quando se quer dizer, na verdade, que a torna mais dura e sem confiança com referência as suas relações interpessoais, quaisquer que sejam elas.

Pois a cada dia que passa, muita gente tenta usar a falsidade para aceitar os amigos como eles são, como se alguém pudesse ser de outra maneira que não a sua própria.

Torna-se um dilema quando se percebe que não existe aceitação, e que a amizade exige naturalmente identidade de valores. Mesmo dispensando as complicações mais fortes do cotidiano, poder-se-ia conviver, restringindo a amizade em sinceridade, fidelidade e correção. Existindo sinceridade em qualquer situação já seria suficiente para se manter uma amizade, senão profunda, confiável.

Quando muitos pensam que falta lugar até do lado direito do peito para acomodar tantos amigos, começam a surgir vagas quando descobre que num amigo estaria faltando um dos valores referidos e o afastamento é inevitável. A maioria dos amigos tem um vácuo de todos os itens e o pobre coração fica absolutamente vazio. Com o mundo todo supervalorizando a concorrência desleal, a amizade sintetizada no calor humano - o sentimento, o querer bem ao outro - pelo valor econômico ou financeiro.

Hoje, você sabe quanto custa financeiramente cada amigo. Existem pessoas sustentando a amizade somente, e na proporção, da expectativa de vantagem que poderiam ter sobre os bens materiais das outras ou interesses diversos dos verdadeiros valores de amizade.

Por causa desse tipo de amigo, muita gente está com o lado esquerdo desocupado, mesmo querendo mantê-lo carregado. Milhões de corações de pessoas sadias e que poderiam ser felizes estão vazios, e que só estão tristes e desoladas porque a quantidade é maior de pessoas que só têm interesses mesquinhos e direcionados ou aos seus recursos ou ao status quo.

Não se sabe se teria cura para tanto egoísmo, mas, com certeza, muitas dessas pessoas não compreendem quanto o seu gosto apenas por objetos infelicitam outras que valorizam troca de informação, bate-papo, brincadeiras, estórias, além de um ombro e ouvido dignos de uma bela confissão. Aquela coisa boba que só tem importância para quem conta e exclusivamente para aquele ouvido louco para registrar a tolice. Apenas um sonho de saudosista, inimaginável para os amigos-objeto.

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