
Uma distância maior do que o espaço entre nossos corpos se infiltrou entre nós. Uma distância impossível de ser rompida por um olhar ou por qualquer outro gesto. A palavra não vinha à boca, e as mãos eram inúteis uma vez que anuladas por não saberem o que fazer ou o que podiam fazer.
Com olhar, gestos, boca e mãos reprimidas, essa distância só aumentava, agigantava-se e tomava conta de todo o quarto e do resto dos cômodos que continham a nós e a nossa distância esmagadora. Era como se habitássemos dois distintos continentes ainda que estivéssemos compartilhando a mesma cama e desprezando os mesmos lençóis no mesmo chão que nossos pés pisavam apesar de realmente distantes. Nossas roupas estavam mais próximas que nosso sexo e nossos pensamentos ninguém sequer sabia onde estavam.
Era como se cada passo dado em direção um do outro, naquele momento, não houvesse existido, ou pior, como se estivéssemos indo em direções opostas. Não sabia quem era aquele com quem troquei versos de amor e fiz, outrora, planos seguros de um futuro alegre. O presente era diferente, movediço. Nada de nossos outros dias se apresentava nesse dia no qual a estranheza talvez fosse a única palavra mais forte do que a distância a se incutir em nossos momentos, nesse ponto, já incompreensíveis. Parecia que não fazia sentido estar ali. Parecia que a lembrança de alguns ontens acumulados era mais confortável do que enfrentar essa realidade esquisita.
Os carinhos pareciam ter sido proibidos, apesar de não sabermos por quem, obedientes os fazíamos não existirem apenas. Tudo isso tornava essas horas dispensáveis, mas elas existiam e se impunham sobre nós mesmo assim. Frágeis, deixávamos ser levadas por esse amontoado de distâncias como quem espera o outro que, tal o que espera, de forma vã e tola, nada faz. Atrapalhávamo-nos em nossa inércia sem beijos ou abraços de reconciliação. E a distância já era toda labiríntica e cada vez mais difícil de ser transposta.
O calor e o suor podiam até servir de subterfúgios, mas nenhuma desculpa era pedida ou necessária. O domingo se acabava nessa distância que já somava muitos quilômetros. Nem a chuva que começava a cair doava mais leveza a esse quadro desigual.
Sem voz, seguíamos distantes sem saber onde essa distância iria dar. Deixávamos essa cena se compor irretocável e nós nos perdíamos, quiçá para sempre, sem nem ao menos sabermos o porquê.