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Mais trapalhadas?
Ao contrário do desejado, esperado e expressado em saudações e cumprimentos de ano novo, a recente transição no calendário se fez sob lufadas do infausto em várias partes do globo na forma de acidentes e tragédias determinadas pela natureza. No hemisfério norte, como que a contrariar a teoria aterrorizante do aquecimento global, o frio manifesto em altas camadas de neve sustou viagens aéreas, fechou rodovias, bloqueou trens, reteve populações em seus domicílios e matou gente entre os mais pobres e frágeis. Abaixo da linha do Equador, o Brasil em destaque, as lágrimas ficaram por conta da resultante do confronto entre o homem desafiador e a natureza que, sempre e em tempo certo, responde aos golpes recebidos, como edificação ao nível dos cursos d’água em áreas de alagamento, sobre encostas ou ao pé destas com intervenções que põem em risco a estabilidade do solo. Está claro que, se assim procede é porque há conivência da parte dos que deveriam impedir, porém agem sob impulso da sede do voto que os mantém no poder. Mas, antes que se manifestasse a fúria da natureza, grupo de brasileiros em solo estranho, ali conheceu a fúria de seus semelhantes, em plena noite de Natal. Até certo ponto, vítimas de circunstâncias sociais em seu país, brasileiros que exploram garimpos de ouro no Suriname, país vizinho ao norte, sofreram ataque em massa de parte da população local, também marginalizada socialmente. Excluídos dentro do Brasil, grande parte analfabeta e até sem documentos, em condições piores estariam lá, se não fosse pelo ouro garimpado ilegalmente e em condições vantajosas em relação aos maroons (descendentes de negros escravos), seus mais fortes concorrentes; vantagem proporcionada pelo financiamento advindo da prostituição, atividade paralela ao garimpo. Sob a ótica paternalista tupiniquim, os garimpeiros brasileiros no Suriname são coitadinhos e, na prática, há que isso reconhecer, desde quando em território brasileiro viviam como herdeiros malditos de Serra Pelada. Contudo, santos não são e, em terra estranha, estão conscientes da ilegalidade com a conivência do governo de cá que os deixa sair e do de lá que os deixa entrar. São vítimas por um lado e também agentes de sua condição, pois o que os move é a cobiça, a ilusão, a ganância em relação ao ouro, fenômeno inerente à natureza humana, desde que assimilada a relação intrínseca entre o valor de um bem e seu grau de raridade. Subsistência por subsistência, poderiam eles ficar no Brasil, mas o brilho do ouro ofusca e ilude. Na filosofia garimpeira, vale tudo para procurar o que não guardou! Fosse outra atividade laboriosa e regular, ninguém teria cruzado a fronteira, assim como os israelitas, seguidores de Moisés, não teriam passado a adorar o bezerro, se este não fosse de ouro. Eles não estavam interessados no ídolo ou deus pagão, mas no ouro ali palpável! Por baixo dos panos, o governo surinamês cobrava taxa anual pela vista grossa à imigração irregular, consentida porque o garimpo de ouro, ainda que ilegal, é vantajoso aos cofres públicos do país, cuja população não passa de quinhentos mil habitantes em território pouco maior que o do Ceará. De repente, deixou de cobrar a taxa e passou a considerar francamente irregular a situação dos brasileiros que, a partir de então, ficaram a descoberto ante hostilidades dos quilombolas, conhecidos como maroons. Essa hostilidade explodiu na noite de Natal, depois que, em briga, brasileiro matou valentão local. Em socorro às vítimas, o governo brasileiro enviou avião, que trouxe de volta os que assim desejaram; boa medida no aspecto humanitário. Quanto aos que preferiram ficar e foram levados para hotel em Paramaribo, capital do país, não está bem se esclarecido se a conta de hospedagem corre por conta do governo local ou do brasileiro. E parte destes a pressão sobre Brasília para que o governo garanta sua permanência e financie, de alguma forma, suas atividades naquele país. É possível que o paternalismo tupiniquim, aliado à pré-campanha eleitoral, queira mais uma vez escorregar no amparo à ilegalidade dentro de outro país. Melhor que negocie com aquele governo a regularização dos brasileiros que queiram lá ficar, por sua conta e risco, e traga de volta os demais. Chega de trapalhadas internacionais! |