O homem acreditava que os pombos atentavam contra sua vida, pois, segundo ele, as fezes dessas aves provocavam-lhe doenças. Por isso, os pombos tinham de desaparecer.
Tal sentença de morte levou-os a entrarem em polvorosa, e convocarem uma assembleia na Estação de Santo André para tratar do assunto.
O chefe deles, do alto de uma cumeeira, falava à multidão de pombos.
Temos de achar uma saída, pois, senão, acabarão conosco. Já não temos mais as sementes que caíam do trem para comer, pois os homens estão tão muquiranas, que empacotam todos os cereais, de modo que não cai nenhum grãozinho de arroz ou de milho nas linhas do trem, e para sobrevivermos, temos de mendigar às pessoas que esperam o trem nas estações e comem seus salgadinhos. Estes parecem isopor, e nos provocam inchaço, dor de barriga, anemia, além de serem a causa de nossas fezes se tornarem perigosas aos homens.
Tenho uma idéia, gritou um pombo vindo da estação de São Caetano. Qual é?
Ora, é só fazer como os homens. Onde é que eles depositam suas fezes?
Ou fazem buracos no chão para depositá-las, ou despejam-nas nos rios.
Fazem buracos enormes, o que não está ao nosso alcance. Devemos então usar os rios.
Decidiram, então, fazer uma revoada sobre o rio Tamanduateí para comemorar a ideia, e lá depositar suas fezes pela primeira vez.
Aconteceu, porém, que, no voo rasante, intoxicaram-se com os detritos humanos que havia no rio, caíram na água e afundaram, para depois submergirem, mortos, formando um tapete.
Dizem que os pombos, ainda hoje nas estações pedindo comida, são os sobreviventes dessa tragédia, pois, por um motivo ou por outro, não tomaram parte da revoada de comemoração.