Um povo destruído, sucumbido históricamente nas garras de todas as tragédias, humanas e naturais. Como sonhar esta gente sem casa, sem destino, sem futuro?
O mundo irmana-se diante da tragédia, o mesmo mundo criador de tragédias e explodidor de bombas. Utopia ou hipocrisia. O mundo reage e toma para si as dores de uma nação destruída pela natureza.
Escombros por toda parte. Restos de sonhos e de vidas. O que fazer agora? O Haiti clama por socorro e o mundo corre para socorrer o Haiti. E depois de socorrido, como ficará aquela gente, não emancipada pelo progresso; não emancipada pela tecnologia; não emancipada pela verdade. Como ficará o povo haitiano, quando os socorristas partirem e deixarem nas ruas e alamedas somente restos da tragédia e montes de destroços?
Muitos partiram e poucos retornarão. Haverá empregos, haverá reconstrução.
Haverá empregos no Haiti para os haitianos, mas o que os haitianos sabem fazer? Viver de caridade, protegidos por forças internacionais... até quando as forças internacionais permanecerão no país imparcialmente? A que custo está chegando à terra destruída pela natureza, cada mão operária, cada quilo de mantimento, cada litro de água potável? Haverá cobranças quando não houver mais esperança de vidas e o cheiro da morte embebedar cada samaritano?
A tragédia não está somente no Haiti. Está na Africa, milenarmente instalada na África. Está no Afeganistão, está na India, está no próprio Brasil. E onde estão as mãos operárias e socorristas? Haiti está na mídia. O homem precisa salvar e ajudar ao homem, mas que seja sem preço. O povo do Haiti não tem como assinar promissórias e duplicatas. Não tem como pagar a conta.
Haverá reconstrução, que não haja vilependiamento da autoridade do país. Construtoras que erguerão espigões, não lancem mais detritos sobre o povo desprovido de voz e de antepassados. Não permitam, homens do poder, o escravizamento moral de uma nação já escravizada diante de tanta pobreza e miséria. Uma nação dependente de armas e coturnos de outros povos para debelar gangues e proteger miseráveis.
Haverá retomada de vida, dentro de pouco tempo. Assim se faz a história, assim se escreve a existencia. Mas, homens letrados e escritores, não permitam que sobre os entulhos mortifiquem o orgulho de uma nação. O Haiti necessita de ajuda, como necessita outros povos, mas não permitamos o surgimento de outros Iraques. Não permitamos que ajuda a famintos e doentes se transformem em moeda de voto para eleições breves. Não permitam, homens letrados e escritores de historia, que na desgraça de um povo, um povo forte não construa bases militares para subjugar outros povos já subjugados por tragédias e egoísmos.
O povo haitiano está chorando seus mortos... não sejamos cumplices do choro haitiano, pelos seus vivos.