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Uma noite de São João
Ele tomou do pão e deu graças. Fizera assim seu pai com a satis-fação e concordância de sua avó, quando esta morou em sua casa. De-pois, ela foi para o interior, viver de aposentada, onde enfim morreu. Só! – como morremos todos, mesmo quando em doida companhia. Seu pai não: morrera em dia de São João, quando as fogueiras ardiam, e as bra-sas tisnavam a cheiro de milho verde. A casa repleta, e a mesa posta. Naquele dia – da morte de seu pai –, eles não deram graças, quando cu-riosamente lhes parecera mais saboroso o milho. Antes, quando não mor-to, seu pai distribuía o pão, pelo que cada um de nós, seus filhos, tam-bém devíamos graças. Curioso fora esquecermos de dar graças a mesa, justamente quando da morte do pai, embora tenhamos comido quase como em homenagem a ele. E comemos. E que saboroso fora o milho, mesmo esquecido o “damos graças”. Agora não. Ele tomou o pão e deu graças, como sempre fizera, desde a morte de seu pai, quando o milho fora excepcionalmente saboro-so, mesmo esquecidos de dar graças. Agradecido, repartira o pão entre seus filhos que – estes sim! – não davam graças, embora aguardassem sigilosamente a oração paterna. A mesa pouco farta, logo definiram a refeição. E ele em pressa, esquecido já da prece feita, vai ao banheiro, em cujo espelho concerta a gravata. Ali vislumbra certas rugas, que ou-trora vira em seu pai, e seu cabelo escasso. Em uma manhã nublada o vento uiva violento entre as cortinas. |