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Pedro Cardoso

[ Pedro Cardoso ]
É crítico contumaz da inércia da sociedade brasileira nas várias questões de cidadania, especialmente com relação à morosidade vergonhosa das Justiças brasileiras.

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Trotes assassinos

As humilhações e violência em trotes sempre ocorreram nas proximidades e dentro dos campus das universidades, sem exceção. Sempre variavam, mas eram grosseiras e ocorriam debaixo dos narizes dos reitores, que nada faziam para impedi-los. Foi preciso morrer um jovem tímido e retraído para que os diretores da USP tomassem uma providência, seguidos pelos colegas de outras instituições.

Lamentável, mas é preciso dizer que muitos pais de adolescentes prestes a ingressar numa Universidade sentiram-se aliviados dos riscos que os seus filhos correriam, caso não tivesse ocorrido a morte de Edison Tsung Chi Hsueh.

Não se trata de vício adstrito aos trotes. A sociedade toda cultua todas as sandices praticadas pelos jovens da classe média. Exemplos não faltam. São rachas, agressão e desrespeito a policiais, fuga e atropelamentos, como fez o filho de um ministro; condolências com os assassinos do índio e outras condutas. Como esses vândalos andam bem vestidos e em bons carros, a maioria hipócrita tem sempre um sorriso amarelo para as suas gracinhas assassinas.

As mesmas camadas sociais que aceitam com naturalidade assassinatos cometidos por jovens da classe média para cima reprovam e abominam os mesmos atos se praticados por jovens maltrapilhos. Para quem tem formação baseada em valores éticos e caráter, todo assassino é somente assassino. Quando esse assassinato ocorrer por diversão, deveria ser punido com a prisão perpétua, para não aguçar os defensores da pena de morte.

Pior do que o assassinato foi o comportamento da direção e dos colegas veteranos da Universidade de São Paulo. O governador deveria ter pedido desculpas à família por ter um reitor que o representa tão condescendente; uma direção irresponsável, pois ao invés de tomar as medidas legais imediatamente, ficaram protelando, com justificativas hipócritas e descabidas.

Apontar alternativas depois da morte do jovem não seria interessante. Talvez mais importante seria alertar para outras situações similares que ocorrem e são aceitos com naturalidade pela sociedade, por todos os segmentos, e pela a imprensa. Exemplificaria o raciocínio com o dinheiro que o Brasil vai entregar à Ford para instalar a fábrica na Bahia quando talvez empregasse mais pessoas se fosse destinado para transposição das águas do rio São Francisco. Ninguém questiona, nenhum organismo de comunicação faz a comparação de qual seria mais benéfico; simplesmente aceita, tão-somente.

Seria necessário que quem presenciou o assassinato do jovem denuncie à polícia; nem se discute o risco, as ameaças e outros argumentos banais. Foi selvageria, de uma arrogância e prepotência típica de uma besta humana. Arrependimento não é atenuante nem excludente de criminalidade como a maioria quer fazer entender. Basta ver a cara deles quando estão dando os seus trotes selvagens para perceber o cinismo em suas fisionomias sarcásticas.

Caso optem pelo silêncio, um (ou alguns) criminoso ficará impune. Para a sociedade resta a punição futura. Ao adentrar num consultório de um ex-veterano de medicina da USP de qualquer série de 1999, todo cidadão tem que ter em mente que poderá estar diante de um assassino. Caso teime em se tratar com um médico desses, não pode alegar inocência após o previsível resultado.

Já os diretores da Universidade deveriam ter sido expulsos imediatamente, em razão de uma atuação comprometedora. Foram negligentes antes, e coniventes depois do assassinato.

Este artigo foi escrito logo após o crime. Não tinha sequer as imagens de um facínora, assassino confesso, em deboche e escracho com relação a sua vítima. Devia já ter certeza antecipada de que poderia comemorar seu feito. O Superior Tribunal de Justiça acabou por atestar a sua conduta, como sempre foi rotineiro nas instâncias superiores da Justiças brasileiras. Este jovem promissor foi mais um dos milhares de assassinados sem assassinos que ocorrem aos milhares todo ano neste país. E ainda o Tribunal Superior Eleitoral afirma que o voto é tão bom quanto o Brasil. Por isso, o destino de todos deveria ser a lata de lixo; não reciclável. E cidadania também seria buscar informações completas de embasamento legal sobre decisões polêmicas como esta. Por muito tempo, tudo vai continuar igualzinho. Os boizinhos classe-média continuarão se divertido de matar pobres e a Justiça carimba a impunidade plena. 

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