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Mico mundial III
Creio que grande parte do público conhece a história do garoto bom nadador, porém grande mentiroso. Por várias vezes, ele simulou afogamento, pondo em aflição seus amigos também nadadores. Na última vez que ele ergueu os braços, gritou e afundou, era pura verdade, mas ninguém acreditou. Na vida real, pelo menos um caso similar, conheço. Indivíduo, chegado à birita e não muito ao trabalho, valia-se de tudo na obtenção de trocados com os quais chegar ao balcão do botequim. Por duas vezes, ele se valeu da caridade alheia e do nome de sua mãe, ao anunciar sua morte e angariar recursos para o seu sepultamento. Na terceira vez, ela havia, de fato, morrido. Mas, devido às mentiras anteriores do filho, quase não se reuniram quatro mãos para levar seu corpo à sepultura. A verdade é que os circunstantes se acostumaram com os fatos repetitivos, naqueles casos, mentirosos, e que quando a situação se inverteu, tornando-se realidade para os principais protagonistas, as mentiras anteriores prevaleceram. A situação parecia a mesma, mas não era. Na política internacional, o terceiro mundo, aos olhos do primeiro, sempre foi protagonista de golpes de estado, normalmente liderados por militares. Toda vez que, longe das urnas, se troca de governo, na América Latina, na África e outros pontos instáveis do globo, já se sabe que houve quartelada, a mesa foi virada e normalidade política se foi pro brejo. É assim que governos dos países da linha de frente, em política e economia, interpretam as primeiras notícias desse gênero, vindas de países abaixo da linha da normalidade considerada por eles. Entre os grandes não se concebe que país, entre os minúsculos, tenha salvaguardas contra delírios despóticos e capacidade para contornar situações na defesa de sua constituição. Para aqueles governos, ditos de primeiro mundo, suas leis são únicas e modelos a serem seguidos pelo restante. Golpe militar foi a interpretação dada por todos às primeiras informações sobre a queda do então presidente hondurenho, que teria sido preso pelo Exército, ainda de pijama, na madrugada de 28 de junho de 2009, e expatriado em seguida. Parecia golpe militar, porque foram militares que o prenderam e o expulsaram para a Costa Rica. Entretanto, a prisão fora pedida pelo Ministério Público de Honduras. Só a expulsão não tinha amparo legal, tendo sido feita por questão de segurança do próprio Zelaya, segundo explicações dadas posteriormente. Ao convocar o eleitorado para plebiscito, visando alterar dispositivo constitucional que proíbe a reeleição para presidente da República, Zelaya se tornou “traidor da Pátria”, de acordo com dispositivo da Constituição hondurenha e, por isso, perdeu os direitos de cidadão hondurenho conforme preceitua o mesmo dispositivo. O Judiciário tinha de fazer o que foi feito! Sem que tenham antes lido a Constituição daquele país, toda a comunidade internacional o condenou, a começar pelos Estados Unidos, passando pela ONU e pela OEA. Mesmo depois de constatado o erro – porque não é possível que disso não tenham se apercebido posteriormente – não deram o “braço a torcer”, embora alguns tenham amenizado as críticas dali em diante. Criam que, depois de ter todo o mundo contra si, a pequena Honduras, de apenas sete milhões e meio de habitantes, recuasse em respeito aos grandes e às instituições internacionais (ONU e OEA). O que se viu, entretanto, foi sucessão de fatos políticos em franca sintonia com a Constituição: o calendário eleitoral respeitado (as eleições já estavam marcadas); eleições realizadas dentro de razoável tranquilidade, apesar de “zelaístas” haverem tentado boicotá-las; eleito representante da oposição, a posse, ainda de acordo com calendário eleitoral, acabou se realizando no dia 27 de janeiro último. Honduras segue seu caminho, de acordo suas próprias leis, não dando ouvidos à gritaria internacional. Se há governos que não aprovam o curso dos fatos, após a “delinquência” do Zelaya, e não reconhecem o novo governo, é problema de cada um. Os hondurenhos sabem que sua Constituição contém bom antivírus político e não adianta pressões para desativá-lo. Pela primeira vez, em escala mundial, o princípio democrático de respeito à maioria se revelou falho, pois nem sempre a maioria tem razão. O orgulho político dos grandes ainda resistirá por algum tempo, mas dia virá em que a máscara deve cair! |