Querida!
__É natal, mais um ano que passou e passou correndo. Os dias passaram rapidamente e quase não nos deram chance de olhar o sol com mais carinho, de deitarmos na grama e sentirmos as gotas da chuva em qualquer uma de suas tardes.
Hoje um dia radiante, as pessoas estão leves, todos riem mesmo com problemas, com algumas dores, algumas dificuldades, algumas faltas, muitas saudades; sorriem contagiando aos outros também, abrem os lábios e mostram os dentes, enrugam a face num sorriso escandaloso, natural, eufórico e infantil. Sorriem com a intuição desmedida de que sempre amanhã vai ser melhor, vai ser mais caloroso mais digno e mais especial.
Estar com você me transforma em poeta e as letras que escrevo com a esferográfica na semi escuridão desta noite me faz rever desde o primeiro dia em que te vi, revejo cada momento em que passamos juntos, cada minuto fez parte de minha vida e este presente que adormecida está em meus braços depois de alguns escândalos em choro, mas nada como o colo de pai, não?!
Neste ímpeto de poeta amador penso em olhar, como este olhar de neném me faz incapaz, pequeno, miúdo ante a Deus. Olhares...
O olhar da criança brilha na expectativa do presente, vive seu tempo sem ligar ao que vai à frente, vive por que quer absorver o absoluto, que alimentar a fome de saber e aprender, já fomos assim, às vezes nos esquecemos de olhar o mundo com estes mesmos olhos, puros e inocentes, que aceita o carinho por que faz bem.
O olhar do adolescente enche de esperança com a vida que se apresenta á frente, com seus medos, suas ansiedades, ousadia e impulsos de viver, busca incessante de novas experiências, de novas oportunidades e sentimentos que explodem dentro de si com a mesma volúpia de seus hormônios.
O olhar do velho derrama lágrimas por natais passados, por companhias que o deixaram pela vida, por momentos idos que hoje lhes trazem lágrimas aos olhos cansados, felizes e tristes momentos passados. Prendem-se a detalhes, sabem que na observação do vento é que se aprende sobre sua direção e sua força, sabe que na maré é que se compreenderá se a barca seguirá o caminho certo, tem a experiência de ter vivido, tem a capacidade de ponderar e de não se entregar.
O olhar do apaixonado enlouquece a si mesmo com o tamborilar do coração travesso... Com os olhos marejados, a ansiedade de ver-te a dobrar a esquina, a sair pela porta, a encontrar olhos nos olhos, a pegar sua mão... Ao apaixonado se deve a entrega sem pedido de retorno, de uma voraz absorção de vida e alma, de energia e prazer, é sentir alegria no corpo colado com o suor a escorrer pela pele, ao beijo quente sob o sol ou na luz mansa da lua, no rolar de corpo na areia da praia...
E no olhar do artista unem-se todos os olhares, o brilho do olhar da criança transforma-se em cores um desenho de singela ternura, o traço suave e bonito, a simplicidade a inocência e a levada meiga de um sorriso calmante. A esperança do adolescente dá-lhe um roteiro de teatro ou ao cinema, num sonho com uma mensagem de aguerridos desafios, um conto com histórias fantásticas e de medos ainda com raízes à superação... As lágrimas do velho são anotações em um livro, repleto de recordações, de saudades de momentos, pedaços envoltos em tormentos outros em extrema paixão, obstáculos ultrapassados e outros esquecidos, deixados ao largo de uma estrada qualquer que nem se torna interessante reavivar. Do olhar do apaixonado se impregna no ritmo do coração e surge então uma canção que fala de amor como uma oração, um sentimento de procura, de encontros e desencontros, uma paixão feita com abraços, mãos, beijos e falta, amar é isso: é sentir saudades de quem está a seu lado. E com esta mistura de sentimentos é que eu desejo que a luz, que ilumina nossas vidas que ilumina seus olhos verdes, o sorriso de nossa pequena benção trazida a nós em março e que agora adormecida sonha com sonhos do céu; que esta luz traga a nós um natal simples, feliz e cheio de paz.
E que no próximo ano essa luz com todos esses raios nos acompanhe.
A você, a mim e à Nicolle.