No dia 12 de junho de 2000, todos os olhares se voltaram para o drama dos passageiros de um ônibus seqüestrado no Rio de Janeiro. E a história do 174, cujo desfecho foi transmitido ao vivo pelas emissoras de TV, seria contada oito anos depois por José Padilha (o mesmo diretor de Tropa de Elite) em um documentário de tirar o fôlego.
‘Ônibus 174’ mostra não apenas a figura do personagem central, Sandro Nascimento, mas também a forma como a imprensa cobriu o caso. As tentativas de repórteres e cinegrafistas de se aproximarem o máximo possível da cena onde tudo se desenrolou, colocando em risco as próprias vidas e as de terceiros. Sem contar as dificuldades de negociação entre a polícia e o bandido.
Sandro, que anos antes sobrevivera à chacina da Candelária, tem agora os holofotes sobre si. O menino de rua que cresceu amargurado com as dificuldades que a vida lhe impôs, tem agora os olhos da sociedade acompanhando-o. E diante disto proporciona um espetáculo de horror, fazendo dos reféns parte integrante de sua ira.
Para a produção de ônibus 174 foram utilizadas imagens garimpadas ao longo das quase cinco horas de transmissão ao vivo por emissoras de televisão, além de uma série de entrevistas com reféns, familiares, amigos e do viúvo de Geisa Gonçalves, morta durante a ação policial.
Durante a narrativa, Padilha relata também alguns aspectos que passaram praticamente despercebidos no momento da tragédia, como as deficiências técnicas dos policiais que participavam da negociação com Sandro e a interferência de autoridades que não estavam no local, mas davam ordens sobre as atitudes a serem tomadas.
O documentário, ao invés de simplesmente colocar um dedo incriminador na face de Sandro, questiona afinal se foi mesmo ele o principal culpado do caso, ou se foi a polícia, ou a imprensa ou o Estado. A impressão que fica é que cada qual teve a sua parcela de responsbilidade.