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Mario Villas Boas

[ Mario Villas Boas ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Engenheiro Químico e Advogado. Trabalha no centro de pesquisas da Petrobrás

 

Terror Invisível

            Em meu artigo anterior sobre o acidente de Fukushima eu não descrevi adequadamente a que riscos, estamos expostos quando nos expomos a um ambiente com contaminação radioativa. Para preencher esta lacuna, escrevo agora este artigo mostrando como a radiação atua e como pode nos atingir. Antes de mais nada, alguns conceitos básicos:

            Todos os elementos químicos têm isótopos. Os elementos químicos se caracterizam pelo chamado "número atômico" que vem a ser o número de prótons que ele tem no núcleo. Pela ordem, o primeiro elemento, é o hidrogênio, que tem número atômico 1. Em seguida vem o hélio, com número atômico 2, a seguir vêm lítio, berílio, boro, carbono, nitrogênio, oxigênio, etc... Não vale à pena dar a lista completa, pois é muito extensa. A forma técnica de se representar esses elementos com seus respectivos números atômicos é:

                1H, 2He, 3Li, 4Be, 5B, 6C, 7N, 8O

            Além de prótons, os núcleos podem também conter nêutrons. A soma do número de prótons com o número de nêutrons dá o que chamamos de número de massa que é aproximadamente igual ao peso atômico do elemento. Assim, por exemplo, o hidrogênio tem três isótopos todos com um único próton: Um sem nenhum nêutron, com número de massa 1; Um com um nêutron, com número de massa 2 e outro com 2 nêutrons e número de massa 3. São, respectivamente, representados como:

            1H, 2H, 3H.

            O oxigênio tem isótopos com número de massa 16, 17 e 18. São representados como:

            16O, 17O, 18O.

            Esta notação é um tanto estranha para quem não é iniciado na química ou na física nuclear, mas eu não posso usar outra, pois esta é a internacionalmente aceita. Peço ao leitor, portanto, muita atenção par a posição do número em relação à posição do símbolo do elemento – que também respeita uma notação internacionalmente aceita – pois a posição do número denota uma ou outra informação sobre o mesmo.

            Falemos agora do perigo radioativo. O que mais apavora as pessoas no que se refere à radiação é que ela é absolutamente indetectável por nossos sentidos. Não tem cor, não tem cheiro, não faz barulho, não tem gosto, não podemos senti-la. No entanto, é mortal. Quando estamos expostos a ela, não temos como saber que isto está acontecendo muito menos ter noção de sua intensidade, a não ser que estejamos portando algum equipamento especialmente construído para este fim. A radiação deteriora nosso corpo sem que possamos perceber e, quando os primeiros sintomas da contaminação aparecem, quase sempre é tarde demais para impedir que o pior aconteça, ainda que demore alguns dias para acontecer. Mesmo com as melhores técnicas médicas à disposição os profissionais raramente podem fazer mais do que ministrar analgésicos para diminuir o sofrimento da vítima enquanto assistem impassíveis à degeneração seu corpo.

            Existem muitos tipos diferentes de radiação mas fora dos meios acadêmicos estritamente dedicados ao estudo da física nuclear, normalmente nos referenciamos somente a três deles, os mais comuns. São as radiações alfa, beta e gama.

            A radiação alfa nada mais é do que um núcleo acelerado de 4He (apesar da notação, lê-se "hélio quatro"). A radiação beta é um elétron altamente acelerado (e-). A radiação gama é uma radiação eletromagnética semelhante à luz, só que com uma energia muitas vezes maior. Apesar disso, é absolutamente invisível a nossos olhos.

            A radiação alfa tem pouco poder de penetração. Se você, leitor, estiver a 10 centímetros de um emissor de radiação alfa, o ar que preenche o espaço entre você e a fonte de partículas alfa é toda a proteção de que você precisa para não ser atingido por elas.

            As partículas beta são mais penetrante do que as alfa. Apenas o ar atmosférico não vai protegê-lo de uma fonte de partículas beta, se estiver próximo de uma. Porém duas ou três folhas de papel de alumínio, dessas que usamos para embrulhar alimentos em casa, bastam para impedir que elas cheguem até você. Basta que você embrulhe sua fonte de partículas beta em duas ou três folhas daquele papel tão fácil de obter em supermercados que você estará protegido.

            A radiação gama tem alto poder de penetração. Se você tem um emissor gama, como por exemplo o tristemente famoso 137Cs (césio 137, que causou o acidente de Goiânia), mesmo que você o coloque num cofre, desses que existem em alguns escritórios para guardar dinheiro ou documentos muito importantes, você estará protegido desta radiação nas imediações do mesmo.

            O dano provocado à saúde, porém, é inversamente proporcional ao poder de penetração. É muito mais fácil proteger-se de uma partícula alfa do que de uma beta e proteger-se desta do que de uma gama, mas se uma partícula alfa o atingir, o dano que ela lhe causará será centenas de vezes maior do que o causado por uma partícula beta que, por sua vez, causar-lhe-á um dano centenas de vezes maior do que uma partícula gama.

            O que eu disse até aqui pode levar o leitor a pensar que apenas a radiação gama é perigosa, dado seu alto poder de penetração. Terrível engano. Os emissores de radiação são átomos. Nada pode ser menor. Assim, podem ser facilmente carregados pela água ou pelo ar e serem inalados ou ingeridos por pessoas que sequer frequentam os locais onde eles são manipulados. Se isso acontecer, você terá uma fonte radioativa dentro de seu corpo. Não haverá nem mesmo uma tênue camada de ar entre você e a fonte. Nesta situação, as partículas alfa serão seu pior pesadelo.

            Particularmente perigosos são os isótopos de elementos que têm atividades biológicas. Destes destaco o 137Cs, de que já tratei anteriormente, e o 131I (iodo 131).

            O 137Cs é perigoso porque as propriedades químicas do Cs são muito parecidas com as do K (potássio). O corpo humano utiliza K (ou Cs) em processos biológicos que não acontecem sem sua presença. Ocorre que o nosso organismo não consegue distinguir K de Cs (radioativo ou não). Assim, se ingerirmos ou inalarmos 137Cs, nosso organismo não tratará isso como um corpo estranho. Ao contrário, vai tratá-lo como se fosse K e ele vai acumular-se onde normalmente acumulamos este elemento. Ocorre que este elemento é usado em nosso organismo em atividades nervosas e/ou cerebrais. Ou seja, esta perigosa fonte radioativa vai acumular-se em nosso cérebro e nos nossos nervos. A bomba vai explodir justamente nos locais mais nobres de nosso corpo.

            Se é difícil para nosso organismo distinguir Cs de K, ainda mais difícil é distinguir 131I de 127I, de que precisamos em nossas glândulas tireóide. Para azar nosso, esta glândula é particularmente sensível à radiação, de sorte que doses pequenas podem gerar um câncer. Por isso, o 131I é considerado como um dos piores, talvez o pior, contaminante que pode surgir de um reator nuclear que, ainda para azar nosso, o produz em quantidades apreciáveis em seu ciclo normal de operação.

            Isótopos de elementos transurânicos como 239Pu (plutônio 239), que podem também vazar de uma usina nuclear sem controle, se ingeridos ou inalados são tratados como corpos estranhos e nosso organismo tenta eliminá-los. O problema é que são tão tóxicos que podem provocar grandes estragos em nosso corpo antes que ele tenha a oportunidade de eliminá-los. Além da toxidez como fonte radioativa, eles também são tóxicos como metais pesados (não há metal mais pesado do que estes).

            Esses isótopos radioativos, durante um acidente nuclear, pode contaminar o solo, a água que bebemos, o ar que respiramos, o alimento que comemos. Não podemos vê-los, ouvi-los, cheirá-los, sentir seu gosto ou percebê-los de qualquer forma com nossos sentidos. Esta contaminação só pode ser detectada com aparelhos caros demais para serem adquiridos por cidadãos para uso doméstico. Mesmo que você tenha dinheiro para comprar um para uso particular, a venda desses aparelhos é controlada. Você dependerá, portanto, de informações de órgãos governamentais para saber se o alimento que come, a água que bebe ou o ar que respira está ou não contaminado. E, como vimos, nem sempre essas informações são confiáveis. Se isto não basta para determinar que o uso de energia nuclear em larga escala envolve riscos inaceitáveis, eu não consigo imaginar o que seria.

            Ainda há a questão do lixo nuclear. Mas como este artigo já ficou muito extenso, abordarei este assunto num artigo futuro.





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