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Mario Villas Boas

[ Mario Villas Boas ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Engenheiro Químico e Advogado. Trabalha no centro de pesquisas da Petrobrás

 

Herança Maldita - Usinas Nucleares

            Em artigos anteriores abordei os riscos que uma usina nuclear gera para a população quando ocorre uma anormalidade e os técnicos perdem o controle sobre ela. Vejamos agora os riscos que ela gera quando tudo dá certo e nenhuma anormalidade acontece.

            Chamamos de "lixo nuclear"qualquer coisa que já foi utilizada pelo homem mas não tem utilidade e produz uma radiação que pode colocar a saúde humana em risco. Toda usina nuclear produz lixo nuclear. É preciso, porém, conceituar a diferença entre "lixo nuclear de alta atividade" e "lixo nuclear de baixa atividade".

            O "lixo nuclear de alta atividade" é o que resta do núcleo do reator depois que ele perde a capacidade de gerar energia em quantidades comerciais, juntamente com peças do reator que tiveram contato íntimo, prolongado e direto com esse núcleo mas que perderam, por algum motivo, sua utilidade. Mesmo sem a capacidade de produzir energia em quantidades comerciais, o "lixo nuclear de alta atividade" emite radiação numa intensidade tal que é perigoso para um ser humano chegar perto dele, mesmo com aquelas roupas herméticas que os técnicos usam para manipular materiais perigosos. Toda a manipulação deste material deve ser feita remotamente, por meio de robôs ou outros equipamentos acionados a distância até que estejam acondicionados em recipientes blindados e lacrados. Somente nesta condição é seguro a uma pessoa se aproximar dele.

            O "lixo nuclear de baixa atividade" é composto basicamente de peças, equipamentos, roupas ou qualquer objeto que tenha tido contato distante com elementos radioativos. Por exemplo: aquelas mesmas roupas herméticas que os técnicos usam, a que me referi acima. Elas são descartáveis. Isso porque os técnicos as usam para evitar que poeira contendo elementos radioativos se depositem sobre suas peles ou dentro de seus pulmões. Em vez de se depositar nos técnicos, essa poeira se deposita na roupa que, por causa dela, fica radioativa, perdendo, assim, sua utilidade. Transforma-se, portanto, em lixo nuclear. Mas a atividade radioativa é baixa. Também foram classificados nesta categoria móveis e objetos domésticos expostos ao 137Cs em Goiânia quando foram manipulados inadequadamente pelo catador de lixo que o encontrou.

            Defensores da eficiência e segurança da energia nuclear gostam de dizer que o lixo nuclear produzido por uma pessoa que, durante toda sua vida, usa exclusivamente energia elétrica proveniente de usinas nucleares cabe numa colher de sopa. Isto é uma meia verdade e contém uma maliciosa distorção dos verdadeiros riscos do uso da energia nuclear. Primeiramente, esse lixo que cabe neste diminuto volume é somente o lixo nuclear de alta atividade, ou seja, restos do núcleo que não são mais capazes de gerar energia em quantidades comerciais. Isso não inclui a imensa quantidade de lixo de baixa energia – toda a roupa descartável usada pelos técnicos em toda a atividade da usina, todas as ferramentas que de algum modo entraram em contato com material nuclear todas as peças, móveis, aparelhos, embalagens, etc... que entrara em contato com ele, quer em operações normais quer em incidentes que sempre acontecem, mesmo quando não geram vítimas ou exigem a parada da usina.

            Mas admitamos que eles estejam corretos. Digamos que este número seja verdadeiro, ou seja, todo o lixo nuclear produzido por um cidadão que, por toda sua vida, usou energia elétrica exclusivamente proveniente de centrais nucleares cabe numa colher de sopa. Ainda há uma questão a ser respondida: o que fazer com essa colher de sopa amaldiçoada?

            Como me referi anteriormente, esse lixo contém plutônio que tem uma meia vida de 10.000 anos. Aqui cabe uma explicação para quem não é muito íntimo de cinética de reações químicas (ou nucleares).

            O chamado "decaimento nuclear" obedece ao que chamamos de cinética de primeira ordem, ou seja, a velocidade do processo é diretamente proporcional à concentração do reagente, no caso, do material radioativo. À medida que a reação – nuclear, no caso – ocorre, a concentração vai diminuindo o que faz com que a velocidade da reação também diminua. Matematicamente, a reação não termina nunca. Na prática, porém, o número de átomos, embora muito grande, é finito, de modo que, quando o último átomo se decompuser, a reação acaba.

            A forma de se descrever o fenômeno é com o que chamamos de "meia vida" que é o tempo necessário para que metade do reagente reaja. Se partirmos de 1 Kg de reagente, após uma meia vida, metade dele terá reagido. Restarão 0,5 Kg. Passada mais uma meia vida, metade desta quantidade reagira, restando 0,25 Kg. Mais uma meia vida e ainda restarão 0,125 g. Após 10 meias vidas ainda restará cerca de 1 g.

            O padrão internacional para materiais nucleares é que se deve esperar 10 meias vidas para que se considere o material como consumido. No caso do plutônio isso significa 100.000 anos.

            O lixo nuclear de alta energia contém plutônio. Por esta norma, ele deve ser mantido isolado por no mínimo 100.000 anos. Eis as perguntas das quais os defensores do uso em larga escala da energia nuclear fogem como foge o Diabo da cruz: 1) Quanto custa manter essa colher de sopa de lixo nuclear isolada e vigiada pelo período de 100.000 anos? 2) Quem e como vai pagar esta conta? 3) Se daqui a alguns milhares de anos essa técnica de isolamento falhar e houver uma contaminação radioativa que afete nossos descendentes, quem vai ser responsabilizado pela falha?

            Defensores da segurança desta técnica afirmam que podem manter esse lixo contido em segurança por todo esse tempo. Não entendo como podem ser tão levianos. A construção mais antiga feita pelo homem que pode ainda ser considerada como funcional são as pirâmides do complexo de Gizé. Elas têm cerca de 5.000 anos de idade. Com o que alguém pode dar uma garantia de 100.000 anos se nada do que o homem construiu em toda sua história durou mais do que 5.000 anos?

            E se nós aceitarmos essa garantia e nossos descendentes descobrirem, daqui a 5.000 anos que ela não funcionou? Quem vai ser processado por isso? Imaginem, por exemplo, que algum arqueólogo descubra que as pirâmides não eram túmulos, como nós pensávamos, mas, ao invés, depósitos de lixo altamente tóxico que ainda preserva essa característica nos dias de hoje. Imaginem que  alguém descubra que esse lixo está vazando e contaminando as águas do Nilo e do mar Mediterrâneo. Quem vai responder por essa irresponsabilidade? Ramsés II? Akenathon? Nefertiti? O engenheiro responsável pela construção da pirâmide, cujo nome sequer ficou registrado nos anais da história? De que adianta responsabilizar uma pessoa que morreu milênios atrás? É o que provavelmente nossos descendentes pensarão de nós quando os depósitos de lixo nuclear que construímos hoje começarem a se decompor a ponto de deixar vazar seu perigoso conteúdo.

            Mas precisamos ir além. Mesmo que possamos garantir que os recipientes blindados que contêm esse lixo nuclear possa permanecer íntegro por 100.000 anos, isso não resolve todos os problemas. Ele não tem que ser protegido somente das intempéries. Ele tem que ser protegido também de possíveis atos terroristas. Uma pessoa capaz de atentar contra sua própria vida desde que leve consigo uma ou muitas pessoas que considera inimigas, verá nesses depósitos de lixo radioativo uma verdadeira mina para seus objetivos criminosos. Por isso, os depósitos de lixo radioativo não devem apenas ser à prova de intempéries como chuva, maresia, a própria radioatividade do lixo que ela contém, etc... Ela tem que ser também a prova de loucos que possam ter a intenção de usá-lo para objetivos como esse. Por isso, não basta acondicioná-los em recipientes duráveis. É preciso vigiá-los. Por 100.000 anos.

            Ninguém inclui esse custo quando apresenta a conta do preço da energia nuclear. Porque queremos a energia agora. Mas estamos deixando para nossos filhos e netos esta herança maldita. Eles que se virem para encontrar a solução para este problema que nós criamos para ter o conforto de que queremos desfrutar hoje.

            Será que temos esse direito? Será que podemos dispor dos destinos de nossos descendentes que nem conhecemos desta forma? Temos o direito de, em nome de nosso conforto hoje, deixar-lhes um problema deste tamanho?





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