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Jorge Azevedo

[ Jorge Azevedo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

Palavras de consolo após a morte de um ente querido. Existe?

Não sou a melhor pessoa para falar com alguém sobre a perda de alguém. Reconheço.
A morte, para mim, deve ser festejada com musica, alegria, festa.
Peço isto àqueles que convivem comigo. Quando eu morrer quero gargalhadas, alegrias, pois, não sinto a morte como uma partida, vejo-a como a chegada.
Lá, no outro lado, se é que este lado existe, reencontrarei minha história, não esta vivida cá, mas, aquela vivida em minha caminhada.
Verei afetos e desafetos, amigos novos e novos inimigos. Amores novos misturados com amores antigos. Festas nas faces de uns, raiva na face de outros.
Quero batucada em meu féretro, quero musica de Roberto, de Tom Jones, quero o samba enredo da Beija Flor, aquele samba que gosto muito "Bumbum-paticumbum-burungundú" na voz animada de todos os presentes.
Quero uma voz feminina cantando como se fosse para mim "O bebado e o equilibrista".
Não devo ser a melhor pessoa para falar de morte com alguém que acabou de perder um ente-querido.
Em vez de olhar o corpo inerte decorado com flores, quero virar meu olhar para a estrada, se é que esta estrada existe, por onde desfila a minha alma. As luzes, se estas luzes existem, quero ver em todas as cores e tonalidades.
Quem receber-me-á? Meus pais? Irmãos? Mas, que pais e quais irmãos? Os de agora, ou os de outrora? Pais de quais das tantas vidas que devo ter vivido, se existiram realmente outras vidas? Quais dos tantos irmãos me abraçarão, se realmente tive tantos outros irmãos?
Talvez encontre sorridentes mulheres que me amaram e foram por mim amadas. Talvez encontre iradas mulheres que não amei, apenas possuir, e não souberam me amar. Talvez nem encontre nenhuma das tantas mulheres que cruzaram meus caminhos, se houve caminhos, durante minhas eternidades.

Gostaria de ter palavras para dizer a alguém no momento da perda de alguém, mas, como encontrar palavras de consolo se não acredito na dor da perda?

A perda que é, para muitos, dolorosa, para mim é festiva. A unica coisa que não concordo é saber que meu corpo apodrecerá enrolado numa caixa de madeira, que nem sei se de qualidade é. Quero ser cremado. Quero minhas cinzas lançadas em algum jardim e se não tiver jardim, quero minhas cinzas lançadas onde haja verde, só não quero minhas cinzas lançadas sobre águas. Não posso me imaginar engolido por peixes famintos que breve serão pescados e servirá de comida para banquetes ricos ou pobres. Não quero que meu corpo seja alimento de homens.

Em vista disto, não direi nenhuma palavra sobre a perda de um ente querido, não procurarei consolar dores e nem fazer-me consolador de tristezas num momento tão crucial.

Não sei se ajudo ou se trago mais dor pensando assim, entretanto, é isto que penso em relação à morte.

Um momento de festa espetacular e não um momento de dor incontrolável.





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