"Para a felicidade completa, falta a maternidade" - Sandy, metendo a boca no trombone.
Ah, Sandy, assim não. Não porque: primeiro, é considerada e idolatrada por muitos, sejam brasileiros, portugueses, espanhóis, não importa. É ícone e infelizmente não dá pra sair por aí bradando o que quer. Uma frase como essa, à primeira vista, é nada. Apenas um pensamento de uma cantora que há anos tenta desconstruir uma imagem formada.
Mas, se olharmos para seus dizeres com um pouco mais de atenção, veremos uma longa lista de pré-conceitos que conduzem a nossa sociedade a determinados comportamentos. A frase de Sandy, "curtida" e disseminada no Facebook da vida tem implicações em mulheres das mais diversas idades.
Uma jovem fã pode pensar que, de fato, só dá para ser feliz tendo filhos. Uma jovem que já é mãe, pode argumentar que Sandy não sabe do que está falando. E uma mulher que constituiu carreira, dedicou-se a trabalhar e optou por não engravidar? E as que por problemas de saúde não podem fazer parte desta "grande felicidade"?
São frases assim, estereotipadas, que criam justamente o inverso. Trazem agonia, deixam aflitas aquelas que não se enquadram na maravilhosa experiência de ser mãe - conforme dizem. Então quer dizer que só uma mãe é capaz de amar alguém incondicionalmente?
Engraçado... Como se explicam as mamães que abandonam suas crias, ou que entram em depressão pós-parto? E aquelas que disputam a juventude com as próprias filhas adolescentes? E as que abusam do filhinho tão amado? (...) Poupem nossos ouvidos com essas afirmações!
E nem venham falar de instinto materno, do amor incrível que toda mãe sente por seus filhos. A fantástica Elisabeth Badinter, em "O mito do amor materno" completa meu pensamento: "Que vem a ser um instinto que se manifesta em certas mulheres e não em outras? Em vez de instinto, não seria melhor falar de uma fabulosa pressão social para que a mulher só possa se realizar na maternidade?" (p.335, 1985).
Pensem nisso, meninas, jovenzinhas, mulheres e senhoras que se deixam impressionar e concordam de primeira com a frase cheia de rótulos da Sandy. Ser mãe não é sempre uma felicidade, não.
E não estou aqui dizendo que não devemos ser. É apenas uma sugestão para olhar com cautela àquilo que julgam como verdade absoluta. Talvez só abandonando esses mitos é que sejamos capazes de perceber o que nos faz verdadeiramente contentes.