“Andarão dois juntos se não estiverem de acordo?” - Amós 3:3
Este pequeno versículo é, certamente, um dos textos mais mal interpretados que se tem noticia. Sua distorção não produz falsas teologias ou igrejas hereges, mas múltiplos divórcios e separações conjugais, divisões entre irmãos, cisão de igrejas e corte de relações. Tudo isso baseado na interpretação de que SE NÃO SE PODE ESTAR DE ACORDO, NÃO SE PODE ESTAR JUNTO.
Este versículo é a primeira de uma série de perguntas retóricas que o profeta Amós faz ilustrando para a nação de Israel a questão que envolve causas e efeitos. Diz o profeta no capítulo três que o leão não ruge se não pegou uma presa, que a armadilha não se desarma se nada foi apanhado e que o pássaro nela não cai se ele não está armada e ainda que o sentinela não toca a trombeta sem que isso cause alvoroço e apreensão ao povo uma vez que a trombeta é o alerta de perigo.
Ou seja, toda a argumentação do profeta parte da premissa de há uma relação de causa e efeito em cada uma das ilustrações que ele apresenta. Logo, a conseqüência natural da falta de acordo é a separação e, naquele momento específico, havia um grande abismo entre as vontades de Deus e de seu povo. Este desacordo trazia como conseqüência a separação, logo Deus e Israel não podiam trilhar o mesmo caminho se o desacordo permanecesse.
Assim, são muitos os que se justificam diante de Deus e dos homens dizendo: "Não posso permanecer casado porque não andarão dois juntos se não estiverem de acordo, logo a solução é a separação". "Não posso permanecer nessa igreja porque não andarão dois juntos se não estiverem de acordo, logo a solução é a separação". Todavia não é isso que o contexto do versículo ensina.
Se dois não estão de acordo, a SEPARAÇÃO não é a SOLUÇÃO e sim a CONSEQUÊNCIA. A solução é ENTRAR EM ACORDO. Todo o livro do profeta Amós aponta para o desejo de Deus de que Israel ENTRE EM ACORDO com Ele.
Andarão dois juntos se não estiverem de acordo? Não. Logo, que entrem em acordo o mais rápido possível afim de que possam prosseguir juntos na caminhada.
A separação é possível e, por vezes, necessária. Mas não deve ser a primeira opção. A primeira opção deve ser SEMPRE a busca da conciliação. Há, porém, um preço para todo acordo pois, para se entrar em acordo, há que se conciliar pontos de vista, há que se harmonizar opiniões. E não há paz sem dor, não há harmonia sem sacrifício. Duas pessoas não podem chegar a um acordo sem “abrir mão”, sem concessões.
Deus é o exemplo maior desse preço para a PAZ SER POSSÍVEL. A “CONCESSÃO” de Deus chegou ao limite com o sacrifício do Filho Unigênito. Entre Deus e o homem o acordo sempre será possível porque Deus fez a concessão maior e definitiva a favor do “acordo” com o homem.
Nas relações humanas ambas as partes em desacordo podem estar erradas em vários aspectos de suas discordâncias. A busca do acordo (antes da busca da separação) pressupõe a disposição para o sacrifício de algumas vontades e mesmo de alguns direitos em nome do bem maior advindo de CONTINUAR andando junto.
Não se anda se não há acordo e não caminha com quem não temos harmonia. O desacordo paralisa a caminhada e, na maioria das vezes, a separação não é a solução pois quando se “separa, se para” de caminhar.
Andarão dois juntos se não estiverem de acordo? Não. Então: que se entre em acordo em nome da continuidade do caminho fraterno.