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Marcelo Caetano

[ Marcelo Caetano ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Escritor, pianista clássico, jornalista. 12 livros publicados. Professor, filólogo e tradutor.

 

Algumas palavras correntes

                Em seu “O amor é vermelho” (Garamond, 2005), Suzana Vargas propõe, dentre outros, como veremos, um exercício até as últimas consequências da máxima aristotélica:  “Só a tautologia comunica”. Quando nosso sábio de Estagirita disse isso, estava ensinando a seus discípulos do Liceu que, na comunicação humana, incapaz de exprimir por si só e em si só a condição natural de cada um de nós, apenas dizer “uma rosa é uma rosa” é, de fato, verdade, não apenas verossímil.

                A verossimilhança em oposição à verdade, em tempo, era preocupação da tríade grega: Sócrates, Platão e Aristóteles, de formas diferentes, trataram dela. Em Sócrates/Platão, esse conceito era pejorativamente nomeado como “simulacro”; em Aristóteles, não necessariamente depreciativo, o conceito ampliou-se e ganhou o contorno semântico de “verossimilhança”.

                Mas onde quer que estejamos, quando falamos em crítica literária, na questão do poeta, mais especificamente, de Sócrates a Eliot, a verdade, e não o simulacro ou a verossimilhança, interessa-nos mais de perto.

                O que faz de palavras poesia? O que faz da poesia um poema? (uso aqui a dicotomia de Antonio Carlos Secchin).

                Como o LÓGOS grego parte do princípio da racionalidade como força motriz do julgamento humano (de onde Kant foi beber proficuamente para tecer suas “Críticas puras”), é-nos espantoso que um prógono como Heráclito nos tenha afirmado, contradizendo (complementando?) a tríade grega acima exposta: “Só o paradoxo comunica”.

                Por essa razão é que o mito e a ciência, de que tratarei abaixo, pois que presentes, ambos, na obra “O amor é vermelho”, gozam/sofrem o mesmo espartilho de aço quando pretendem expressar suas ideias. A física de partículas (newtonioana), a subatômica (quântica) e a da velocidade da luz (einsteiniana, da relatividade) não conseguem se comunicar linearmente, assim como o mito material e o mito imaterial tampouco o conseguem. E no entanto, somos todos eles e todos eles têm uma voz loquaz o suficiente para, no mínimo, querer falar-nos algo de fundamental.

                Assim se “comporta” o livro de Suzana Vargas: entre o “mergulho” e a “superfície”, somos tudo.

                Pois bem, voltando à Hélade, entre a lógica seca e asséptica da tautologia ou pleonasmo aristotélicos e o desconcerto mítico do paradoxo heraclítico, situa-se “O amor é vermelho”.

                Isso porque a obra de Suzana trata da faceta humana capaz de gerar guerras (como a “Ilíada”) e de promover todas as pazes (como a “Odisseia”). Posso ousar dizer que a obra é um pouco uma saída à batalha, um pouco o aconchego reconfortante do lar? Posso ousar dizer que ela possua um quê de guerreiro e um quê de monge ou de iogue? O livro é humano demais, e por isso esbarra na fragilidade da linguagem, incapaz, como se disse, de representar as mãos e contramãos humanas – simultaneamente.

 “O mapa não é o território” – gritaram filósofos como Lacan, Derrida, Foucault. Mas o poeta não quer “reproduzir” territórios, porque o poeta não trabalha exclusivamente nas plagas da consciência. Diga-se em tempo, ele trabalha muito pouco nessas plagas. O lugar do poeta é o subconsciente, para Jung, ou mesmo o inconsciente, para Freud. Mas um inconsciente muitas vezes coletivo, para Jung. Apesar de todo inconsciente coletivo ser um mito para expressar, na verdade, o único inconsciente que existe, o individual, para Freud. Dialética que, em vez de se propor uma solução, prefere um moto-perpétuo, assim como outras dialéticas da História, como a de Chomsky-Piaget, Duchamp-Leibniz.

Parece-me que, metalinguisticamente, “O amor é vermelho” explicita a impossibilidade da linguagem logo no primeiro poema, “Quase decálogo do amor”: “e a falta da palavra meuamor” (v. 4)/ “Se está perto, não sabe o que fazer com as mãos / nem com as palavras” (vs. 9 e 10) / “do verbo ao toque” (v. 12). Por outro lado, o paradoxo que Heráclito tentou curvar está no mesmo poema: “E porque sabe que é feito de finais / o amor nunca começa / ou se perde no momento em que inicia” (vs. 13-15).

Só há uma conclusão, que é paradoxal e pleonástica, simultaneamente: “O amor vicia” (v. 16).

Detive-me no “Decálogo” porque, como os “Dez Mandamentos” (ou “quase”) ele nos dá pistas do mapa cujo território, embora não tenhamos, somos.

Na parte 2 do livro, eis-nos novamente face a face com a tautologia: “Tudo o que já dissemos”. No fundo, o que podemos dizer sobre o amor? Se formos racionais, seremos absurdos; se paradoxais, óbvios. Surge daí, mais uma vez, a necessidade do poeta, que trabalha numa linha tênue entre o absurdo e a obviedade e, ali, sobre a delicada “faca afiada”, constrói “meias medidas”, apenas “o início”.

A intensidade, que meu caro amigo Secchin (chamo-o ao debate outra vez) evocou sabiamente como força artística na poesia de Suzana Vargas, numa das orelhas da obra, torna as semioses, incontestavelmente, vermelhas. “O amor é vermelho” é um livro “Rubedo”, trazendo à discussão, mais uma vez, o suíço Jung. Quem o lê já passou pelo “Nigredo” e pelo “Albedo” (embora passar não signifique deixar para trás), e pode enxergar a vida como a eterna ferida aberta de Nietzsche, que, longe de causar dor e desatino (apenas), causa gozo e plenitude (também). O corpo é o limite da obra, que por sua vez se espraia em “tentáculos” pelo céu e pelo mar:

EPIGRAMÁTICO

Um sonho não pode ser

maior que nossos braços

Nem tão estranho

Que não pertença ao nosso corpo

                Assim, toda a transcendência ou imanência do signo linguístico, que Saussure (aliás, eis a Suíça novamente, com seus relógios e antimátérias) ou Todorov evocaram se concentra na lei do eterno retorno, no fato de que “mortos sempre voltam” (v . 4, TANGO).

                O livro é uma experiência dos milhares de sentidos que possuímos e que vão além dos cinco escolásticos. Sucedem-se fatos e vibrações, calendários e paisagens, desejos azuis e verdes, flautas, mergulhos, memórias e pianos. A física é colocada em sua limitação nomeadora junto com a teologia, com a cruz. São todas linguagens limitadas, como já se disse. O cientista, por mais que creia no contrário, não possui privilégios, diante da língua que usa, em relação ao místico, ao músico, ao poeta. Somos todos limitados e só podemos expressar parte do território cujo mapa consideramos fidedigno: “As palavras assassinam” (Sem título, p. 57, v. 6) “E se retalham de indefinições” (idem, ibidem, v. 9).

                A obra, ademais, é perpassada por lindas fotografias de Antonio Lacerda, que sobressacralizam o teor inefável das palavras.

                Não se trata de um livro apenas de sentidos (como, aliás, já frisei), mas sobretudo de um livro que aborda algo que, por sua natureza infinita, não deve ser abordado impunemente: o amor.

                Embora, à primeira vista, esse vocábulo seja o alvo de muitos poetas, dificilmente a sua plenitude sígnica consegue ser alcançada com tanta veracidade. O que mais temos são simulacros (voltando a Sócrates e Platão), verossimilhanças (voltando a Aristóteles), mas dificilmente obtemos, neste tema, obras cuja profundidade rasa tenha conseguido, de fato, e no seu grau máximo, o que de mais espetacular e assustador poderia ter conseguido: a obra de Suzana conseguiu ser vermelha.

                E todo o mais que se fale dela terá como convergência esse fato raríssimo: olhar o “avesso” sem “ordinariez”. “Vai passar muito tempo” até que outra experiência nos proporcione os incômodos e os regozijos da obra de Suzana. “Vai passar muito tempo”, “até dizer eu te amo”.

                Brava, Suzana Vargas!





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