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Elisabeth Camilo

[ Elisabeth Camilo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Tradutora, jornalista e mestra em Letras - Linguagem e Memória Cultural.

 

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Sobre carnavais, malandros e heróis

Assisti com ar de surpresa negativa os desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo.  Depois de uma série de notícias que denunciaram a corrupção e a extorsão nas diretorias das famosas escolas cariocas, com direito a cena cinematográfica de invasão a mansões e em ano anterior a descoberta de compra de jurados em prol de uma mesma escola durante anos seguidos, o telespectador já assiste os eventos com o pré-julgamento de que vai haver "clorofila", conforme foi dito durante a apuração das campeãs paulistas de 2012.  A maioria das pessoas pensam de alguma forma parecida: se você tem dinheiro, você cumpre o jurado.

Roberto DaMatta discute o tema da carnavalização da ordem, da cordialidade brasileira e do jeitinho de nosso povo em sempre encontrar brechas e formas de driblar essa mesma ordem.  A cordialidade se dá quando aceitamos os resultados sem briga ou com pouca briga, expressando que tudo fica bem quando acaba bem.  Ou,se quisermos, essa cordialidade se dá quando imaginamos que hoje perdemos mas amanhã vamos ultrapassar esse limite, mesmo que eu faça a mesma coisa que o outro fez.  Aliás, o que vale a pena no carnaval é brincar, não é?  Não, não é.  Carnaval virou uma indústria e como instituição produtiva, visam-se o lucro e a competição.

Em discussão com um grupo sobre o que ocorreu no sambódromo do Rio de Janeiro, o tema era a "paradona" da Mangueira.   Um dos presentes argumentou a favor da escola verde e rosa, a Mangueira, dizendo que a paradona foi fantástica.  Outro questionamento foi " como avaliar bateria se a bateria quase não trabalhou e chegou a ficar aproximadamente  6 minutos sem tocar ( as paradinhas e a paradona).  Ouvimos surpresos o que DaMatta já havia nos ensinado com seus livros, entre eles "Carnavais, Malandros e Heróis" .  O argumentor apenas disse que a escola exibiu sua bateria diante dos jurados e, depois de ter obtido sua nota, fez um show para o Brasil, já que o jurado já havia registrado sua nota.  Para mim, isso pode ser traduzido como " depois que a porta-bandeira foi julgada, ela deve jogar para cima a bandeira, retirar toda a parafernália do vestuária, e desfilar nua na avenida; afinal. já foi avaliada.

Regras foram feitas para serem seguidas, mas isso não parece correto no Brasil.  Sem dúvida, fica difícil saber quem será a vencedora no carnaval carioca; entretanto, se paradonas para julgamentos de bateria são recursos válidos para avaliação, no próximo ano teremos as mesmas em todas as escolas, com 10 minutos ou mais.  Se vale violino e sanfona no corpo orquestral da agremiação,  tífanos e flautas também.

Viva o carnaval do interior do Brasil, onde ele, de fato, existe:  rolar no mangue no norte, brincar com bonecos no nordeste, pular na rua em Ouro Preto e Diamantina, acompanhar o Zé Pereira.   Deixemos os malandros para os carnavais do Rio e de São Paulo, este último vítima de atentado ao pudor e à honra no momento de sua apuração em 2012.

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