“Confesso-te, porém, que adoro o Deus de nossos antepassados como seguidor do Caminho, a que chamam seita. Creio em tudo o que concorda com a Lei e os Profetas, e tenho em Deus a mesma esperança desses homens: de que haverá ressurreição tanto de justos como de injustos. Por isso procuro sempre conservar minha consciência limpa diante de Deus e dos homens” (Atos 24:14-16)
UMA FÉ INDUBITÁVEL - Há declarações de fé que deixam margem à dúvida. Há comportamentos que geram questionamentos. Se a fé é a CERTEZA, a manifestação dessa fé (seja em palavras ou em atos) não pode deixar DÚVIDAS. Não significa que todos que ouvirem crerão, mas que todos que ouvirem possam compreender.
A título de exercício, leia o texto acima e após cada expressão acrescente a pergunta “O quê?” ou “A quem?” ou “Como?” (dependendo do contexto). A confissão de Paulo é simples, concisa e não deixa margem a nenhuma pergunta ou dúvida. Quando Paulo para de falar, tem-se a perfeita e exata compreensão sobre EM QUÊ ele crê.
O apóstolo Paulo havia sido levado diante do procurador romano da Judéia, Félix, pelo Sumo Sacerdote Ananias, por um advogado contratado (Tértulo) e pelos líderes judeus que o acusavam de ser um perturbador e um dissidente da verdadeira fé judaica.
Em defesa Paulo nega as acusações de perturbação: “Não me encontraram discutindo com ninguém... nem incitando uma multidão na sinagoga ou em qualquer outro lugar...” (Atos 24:12). E cobra o ônus da prova: “Não podem provar as acusações que agora levantam contra mim...” (Atos 24:13)
Paulo define todas suas respostas; ele adjetiva todos os substantivos que utiliza. O “Deus” a que serve é o de seus antepassados (ou seja, o mesmo do de seus acusadores). O Caminho que segue é aquele a que chamam “seita”. O conteúdo de sua fé (A Lei e os Profetas); a sua esperança (a ressurreição); a ressurreição que espera (dos justos e dos injustos); a sua consciência diante de Deus e dos homens (limpa).
1 – UMA FÉ QUE SE EXPRESSA, SE ASSUME – O procurador Festo não questiona o apóstolo sobre sua fé. Paulo poderia ter se limitado as “negações” (Não discuti... Não promovi tumulto... Não isso, não aquilo), mas após suas “negativas” Paulo diz: “Porém, confesso-te...” Ou seja: se era para ser julgado (e até condenado) que fosse pela fé que Paulo possuía e não pela distorção que seus acusadores apresentavam contra ele. A fé de Paulo era a mesma para viver ou para morrer.
2 – UMA FÉ/CONFISSÃO QUE É INTENSA – Paulo não deixa dúvidas de quão intenso é seu vínculo com essa fé. Não diz que tem “simpatia”, que “flerta”. Paulo não segue Deus apenas, não crê em Deus apenas, não é membro de uma comunidade apenas. “Confesso-te que adoro a Deus...”
3 – NÃO DEIXA DÚVIDA SOBRE QUEM ADORA – “Adoro a Deus” diz o apóstolo e ele dá nome e sobrenome à sua divindade (“Adoro ao Deus de nossos antepassados”). Paulo estava diante de um procurador romano e vivia numa época em que o Imperador era considerado uma entidade divina, todavia faz questão de especificar seu comprometimento com o mesmo Deus de seus acusadores (“nossos antepassados”). Isso era (a um só tempo) uma forma de mostrar a “tradição” de sua fé (ou seja: não era algo novo) e a sua “identidade” (não era algo distinto do que criam os judeus que o acusavam).
4 - NÃO DEIXA DÚVIDAS SOBRE COMO ADORA – Paulo adora o mesmo Deus dos judeus, mas não da mesma forma: “Adoro o Deus de nossos antepassados, conforme o Caminho a quem chamam seita”. Paulo não tentou fugir de uma possível condenação assemelhando-se a seus detratores: ele sinalizou as semelhanças (mesmo Deus, mesma esperança de ressurreição) e ressaltou a diferença (como “seguidor do Caminho”).
5 – NÃO DEIXA DÚVIDAS SOBRE SEU CONTEÚDO – Paulo não é parcial. Os Saduceus (escola de interpretação a qual pertencia o Sumo Sacerdote) não criam nos Profetas (apenas na Lei) e não acreditavam na ressurreição. O conteúdo da sua fé é TUDO o que concorda com a Lei e os Profetas. Note-se que ele não diz TUDO o que ESTÁ na Lei e Profetas, mas tudo que CONCORDA. Ou seja: ele admite que haja coisas nas quais se possam crer a despeito de não estarem nas Escrituras Judaicas, mas que estarão em harmonia com a mesma.
6 – UMA FÉ QUE REDUNDA EM COMPORTAMENTO ÉTICO – Por fim, a fé de Paulo se concretiza, se “historiciza”, se manifesta em atitudes as quais o apóstolo resume a expressão “consciência limpa diante de Deus e dos homens”.
A defesa de Paulo é brilhantemente concisa. Sua confissão não gera confusão e nos ensina que, na condição de servos do Senhor, nós poderemos ser amados ou odiados em decorrência de nossa fé e comportamento, mas deveremos sempre nos esforçar para jamais sermos mal interpretados. A fé que nos habita pode ser crida ou repudiada, mas jamais ignorada ou confundida.