Na véspera do dia das mães, quantas delas não choram a perda de seus filhos nas guerras do tráfico e do tráfego? A droga mata e o carro também. Aquele jovem rapaz, vindo do trabalho, como o Pedro em questão, foi atropelado ou cochilou ao volante, mas para ele não houve atendimento rápido. Ele pode ter sido socorrido, mas permaneceu no Pronto Socorro por horas a fio e, quando se percebeu, já havia morrido. O tratamento dado a um é diferente do tratamento dado a outro. Sem ideologia, no Brasil ser rico significa ter atendimento privilegiado em todos os aspectos.
Sabe-se que o sitema de saúde pública no Brasil é precaríssimo. O agendamento de uma consulta no SUS demora meses e os médicos se queixam de baixos salários e de pouca aparelhamento para atendimento de urgência. A mídia denuncia: hospitais públicos pedem socorro e os pacientes jazem em corredores sem atendimento. Mas Pedro é filho do Leonardo, que é irmão do Leandro, e todas as referências são muito positivas para ele. O mesmo ocorreu com Lula, que repidamente teve seu tratamento de câncer iniciado e sanado, bem como a presidente Dilma e outros VIPS. O ex-vice presidente José de Alencar um dia disse no Jornal Nacional da Globo que ele ficava preocupado porque tinha dinheiro para tratar de sua moléstia mas via o povo brasileiro morrer sem atendimento, Sentia culpa por poder pagar preciosas injeções que ampliavam a sua vida. Ah, e como ele tinha razão. Se você tem dinheiro, um jatinho leva você para o hospital e os médicos não pensam duas vezes em ficar para sempre ao seu lado. Enquanto isso, criancinhas mineiras recebem leite materno na veia ou ácido no estômago... As mães choram, mas e daí?
Quanto tempo ficaria o filho de um pobre em um hospital, sendo monitorado por tecnologia perfeira e por médicos famosos, na busca de se salvar a sua vida? Será que um dia vamos ouvir a mídia relatar que uma jornalista está na porta do hospital X esperando que o boletim médico do filho de um pedreiro que mora na favela carioca saia e que o povo saiba como ele se encontra em termos de saúde? E se ele cochilou ao volante, de tanto cansaço por trabalhar a noite inteira, e ao retornar para casa com o dinheiro para comprar o pão e o leite, sofreu danos como o Pedro? Isso é fato corriqueiro, acontece a cada minuto nesse Brasil imenso e as pessoas sempre dizem que foi Deus quem quis que ocorresse assim e só lamentam e choram.
Há pouco tempo, em uma reunião em distrito de Ouro Preto, ouvi uma senhora dizer com tristeza para um possível candidado a prefeito, que o que ela mais temia era alguém passar mal e precisar de uma ambulância. Aquela população costumava ligar para o SAMU e a ambulância nunca aparece. O que ela queria da autoridade? Apenas a chance de, em um sinistro, morrer com um médico socorrista do lado e isso ela não tinha certeza se ia ocorrer.
Não gostaria que meus leitores imaginassem que desejo que Pedro morra e nem que qualquer autoridade sofra os mesmos males que a população pobre sofre. Ao contrário: deseja-se final feliz para todos, inclusive para os pobres e principalmente para eles.
Não gosto de pensar que os finais de nossas histórias sejam como aquele que George Orwell, na obra " A Revolução dos Bichos" deixa claro: todos os animais são iguais mas alguns animais são mais iguais do que os outros... Creio que a pergunta que inicia esta crônica resolveria rapidamente o conflito ético que se estabelece entre os gestores de saúde e o povo brasileiro. Nesse caso, a mãe ou o pai de um jovem morto sem atendimento, deveriam questionar à autoridade: e se meu filho fosse seu filho?