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Elisabeth Camilo

[ Elisabeth Camilo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Tradutora, jornalista e mestra em Letras - Linguagem e Memória Cultural.

 

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E se fosse meu filho?

Na véspera do dia das mães, quantas delas não choram a perda de seus filhos nas guerras do tráfico e do tráfego?   A droga mata e o carro também.  Aquele jovem rapaz, vindo do trabalho, como o Pedro em questão, foi atropelado ou cochilou ao volante, mas para ele não houve atendimento rápido.  Ele pode ter sido socorrido, mas permaneceu no Pronto Socorro por horas a fio e, quando se percebeu, já havia morrido. O tratamento dado a um é diferente do tratamento dado a outro.  Sem ideologia, no Brasil ser rico significa ter atendimento privilegiado em todos os aspectos.

Sabe-se que  o sitema de saúde pública no Brasil é precaríssimo.   O agendamento  de uma consulta no SUS demora meses  e os médicos se queixam de baixos salários e de pouca aparelhamento para atendimento de urgência.  A mídia denuncia: hospitais públicos pedem socorro e os pacientes jazem em corredores sem atendimento.  Mas Pedro é filho do Leonardo, que é irmão do Leandro, e  todas as referências são muito positivas para  ele.  O mesmo ocorreu com Lula, que repidamente teve seu tratamento de câncer iniciado e sanado, bem como a presidente Dilma e outros VIPS.  O ex-vice presidente José de Alencar um dia disse no Jornal Nacional da Globo que ele  ficava preocupado porque tinha dinheiro para tratar de sua moléstia mas via o povo brasileiro morrer sem atendimento,  Sentia culpa por poder pagar preciosas injeções que ampliavam a sua vida.   Ah, e como ele tinha razão.  Se você tem dinheiro, um jatinho leva você para o hospital e os médicos não pensam duas vezes em ficar para sempre ao seu lado. Enquanto isso, criancinhas mineiras recebem leite materno na veia ou ácido no estômago... As mães choram, mas e daí? 

Quanto tempo ficaria o filho de um pobre em um hospital, sendo monitorado por tecnologia perfeira e por médicos famosos, na busca de se salvar a sua vida?  Será que um dia vamos ouvir a mídia relatar que uma jornalista está na porta do hospital X esperando que o boletim médico do filho de um pedreiro que mora na favela carioca saia e que o povo saiba como ele se encontra em termos de saúde?  E se ele cochilou ao volante, de tanto cansaço por trabalhar a noite inteira, e ao retornar para casa com o dinheiro para comprar o pão e o leite, sofreu danos como o Pedro?   Isso é fato corriqueiro, acontece a cada minuto nesse Brasil imenso e as pessoas  sempre dizem que foi Deus quem quis que ocorresse assim e só lamentam e choram.

Há pouco tempo, em uma reunião em distrito de Ouro Preto, ouvi uma senhora dizer com tristeza para um possível candidado a prefeito, que o que ela mais temia era alguém passar mal e precisar de uma ambulância.  Aquela população costumava ligar para o SAMU e a ambulância nunca aparece.  O que ela queria da autoridade?  Apenas a chance de, em um sinistro, morrer com um médico socorrista do lado e isso ela não tinha certeza se ia ocorrer.

Não gostaria  que meus leitores imaginassem que desejo que Pedro morra e nem que qualquer autoridade sofra os mesmos males que a população pobre sofre.  Ao contrário: deseja-se final feliz para todos, inclusive para os pobres e principalmente para eles.

Não gosto de pensar que os finais de nossas histórias sejam como aquele que George Orwell, na obra " A Revolução dos Bichos" deixa claro: todos os animais são iguais mas alguns animais são mais iguais do que os outros...   Creio que a pergunta que inicia esta crônica resolveria rapidamente o conflito ético que se estabelece entre os gestores de saúde e o povo brasileiro.  Nesse caso, a mãe ou o pai de um jovem morto sem atendimento, deveriam questionar à autoridade: e se meu filho fosse seu filho?

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