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Nylton Batista

[ Nylton Batista ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Redator de jornal há cerca de vinte anos. Também escreve contos, alguns dos quais publicados em antologias.

 

Contrastes

Dependendo do nosso estado de espírito, a chuva intermitente, dessas que nos recebe pela manhã, acompanha-nos na jornada diária e nos põe  para dormir, irrita-nos ou nos leva à introspecção. Nesta última condição, nossa atenção se volta para  o mundo verde paralisado, como que extasiado e a receber das nuvens o fluxo, elemento vital à vida que brota da terra. E essa vida proporcionada pela chuva é, mais tarde, transformada na energia que move nosso corpo, enquanto pleno também de vida.

 Tarde de chuva fria, caminhava em Ouro Preto, escolhendo com cuidado onde pisar, evitando molhar-me mais do que o necessário ou cair, traído por cascas de jabuticabas – era tempo delas - que a pouca educação espalha como se estivesse em seu quintal. Enquanto os pés, mecanicamente, cumpriam sua função, a cachola (não confundir com nome de banqueiro “nó cego” e fujão) ia remoendo pensamentos ligados à dinâmica da natureza como, por exemplo, essa troca constante entre o céu e a terra; troca que mantém o equilíbrio de forças, embora nos pareça estar a natureza desequilibrada com o céu devolvendo de forma mais do que explícita o que a terra mandou para cima, também em excesso, porém de forma mais sutil. Absorto nessas considerações, nem sei como escapei de ser enlameado por um jumento motorizado, que passou de propósito junto ao meio fio para lançar empoçada nos passantes. E foi nesse momento que levantei os olhos, para ver  indo à frente um guarda-chuva quase rente ao chão, devido ao pequeno porte de quem o segurava.. Abaixo do guarda-chuva, duas perninhas envoltas em calças já bastante molhadas pisavam firmes, salpicando água aqui e ali. Ao passar pelo que, de longe, parecia um guarda-chuva de pernas, ouvi: - Moço! Moço! – virei-me já imaginando que depois daquele chamado insistente, ouviria o vicioso “me dá um trocado” ou até “me dá um money”, porque, em Ouro Preto, há pedintes também “poliglotas”. Mas o garoto que, a julgar por sua compleição física, não passava de uns dez anos deu seu recado: - Compre uma coisinha na minha mão!  - Ele carregava pequeno balaio, razão pela qual o guarda-chuva estava tão baixo com as barbatanas apoiadas na cabeça. Dentro do balaio, pacotinhos de amendoim torrado, balas caseiras e outras guloseimas. Sem pensar, perguntei o preço, ao que ele respondeu: - quinze centavos. Pequei um pacotinho daqueles, passei-lhe vinte centavos e recomecei a seguir meu caminho sem me preocupar com o troco. Mais uma vez: - Moço, espere o troco. O senhor não me deu vinte centavos? –  Dizendo isso, o pequeno vendedor, denotando satisfação, revolveu sua bolsinha de pano e de lá tirou uma moedinha de cinco centavos, que recebi enquanto ele agradecia. Prossegui em meu caminho, mas os pensamentos deixaram a natureza cósmica para se fixar na natureza humana.

O ideal e normal seria que aquele garoto, se já tivesse ido à escola, estivesse em casa a brincar ou a cuidar de algo que mais de perto lhe interessasse, mas se as circunstâncias o punham na rua sob aquele tempo impiedoso, louve-se o fato de estar trabalhando. O garoto denotava senso de responsabilidade, protegendo a mercadoria; firmeza em seus propósitos, oferecendo a mercadoria ao público; honestidade, dando o troco sem apelar para qualquer chantagem emocional; e, a coroar seu comportamento como vendedor, educação no relacionamento com eventuais fregueses. Lembrei-me então de quantos escândalos financeiros somos vítimas ultimamente, dos superfaturamentos  que ensejam enriquecimento ilícito; das fraudes, que desviam milhões de reais da aplicação nas necessidades básicas do povo. Lembrei-me das vezes em que, ao solicitar comprovantes de despesa, a pessoa responsável  pergunta de qual valor eu quero a nota; prova de que o superfaturamento é coisa corriqueira neste país. Vi naquele garoto a cara do povo honesto e trabalhador, único responsável por ainda estar de pé este Brasil.

 Se dependêssemos da estrutura oficial, voraz na cobrança de impostos, incapaz para por ordem na casa e contaminada por “lalaus” de punhos rendados, este país já teria ido para o brejo... junto com a vaca do dito popular!





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