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Elisabeth Camilo

[ Elisabeth Camilo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Tradutora, jornalista e mestra em Letras - Linguagem e Memória Cultural.

 

Ariano Suassuna, Ouro Preto e a Cadela Branquinha

Não devemos crer, em nenhuma hipótese, que o se escreve na ficção permanece sempre na ficção.

            Ariano Suassuna, que foi morar junto aos anjos escritores, escreveu o “Auto da Compadecida”, texto parodiado no dia 21 de agosto de 2014 na série “A Grande Família” e centenas de vezes apresentado em palcos de teatro pelo Brasil.  O que é interessante para um país como o nosso do que misturar cultura popular com o “jeitinho brasileiro” de ser, fazendo-se as exéquias para a cadela que pertencia à mulher de um padeiro e que “cagava” dinheiro?   Um tom de maldade, de ironia e uma grande verdade – a de no Brasil muitas excentricidades são vistas – são os eixos da peça.  A crença de que a mãe de Jesus, Maria de Nazaré – conhecida por todos os cristãos como “A Intercessora”, porque sempre pedimos a ela que por nós interceda junto a seu filho, permeia toda a trama, sem qualquer crítica a isso.   O autor insiste em colocar um Cristo negro, para mover alguma discussão sobre as questões raciais tão presentes em nosso país.  Todavia, e retornando ao eixo desse texto, o que nos impacta é o fato de que, sob propina, o padre canta as exéquias em latim, o sino da igreja local bate e a cadela recebe quase todos os benefícios que um morto cristão recebe quando se vai para o eterno.   Padre, bispo, donos da cadela, pessoas que tramaram o ritual (Chicó e João Grilo) e outros personagens como o cangaceiro, todos foram para o inferno por causa do delito da cadela.  A advogada, Maria Santíssima, por eles intercede e alguns vão para o Purgatório e outros têm a chance de reencarnar na Terra.  Mas, questiona meu leitor, o que tem isso a ver com o título?  Já vou explicar...

            Ariano deve estar feliz no mundo espiritual porque viu há algumas semanas sua ficção se tornar realidade na pacata cidade mineira de Ouro Preto.  Não que houve missa e encomendação da cadela “branquinha” em latim, mas que houve pranto em toda a cidade pela morte da cadela, toque de sinos na catedral e em igrejas próximas, notas na imprensa e, com certeza, algum ritual para sepultamento, com certeza, isso houve.  Não posso garantir onde Branquinha foi sepultada, mas seu corpo não foi enviado para o lixão da prefeitura e, provavelmente, recebeu flores e presentes de quem a amava na cidade, e eram muitos os que nutriam por ela algum sentimento positivo.

            Branquinha um dia se abrigou na porta da igreja da Catedral do Pilar e, percebendo como as pessoas que ali entravam a tratavam com afeto, praticamente passou a morar ali.  Disseram-me que tinha dona, mas nunca a vi ou soube seu nome.  A cadela mais bem tratada da cidade não passava fome e nem sede, havia quem desse banho e a ornasse com diversos enfeites, andava de táxi pela cidade até seu ponto preferido, passeava pelos tapetes de serragem, ela era, de fato, uma personagem excêntrica de nossas ruas. 

            Lembro-me quando eu era bastante jovem, no curso médio ainda, que meu professor me falou sobre o complexo de Pavlov.  Ele me dizia que todo ser vivo podia se acondicionar, se adaptar a determinadas condições, parecendo ser inteligente.  O caso era de um cão que, sempre que ouvia o tinir de uma campainha, corria até seu pote de comida, esperando ansioso pelo seu dono.  Imagine o leitor a cadela Branquinha, ouvindo os sinos da catedral ouro-pretana e sabendo que todos os que a amavam estariam ali de forma rápida, trazendo guloseimas e afeto...  Complexo de Pavlov.  Só que Branquinha morreu e, então, Ariano entra em cena.

            Grande parte da população pranteou a morte da cadela.  Houve quem não conseguisse imaginá-la morta.  Nas redes sociais, o símbolo do luto se disseminou.   A notícia que veiculava na cidade, inclusive nos jornais, era a morte da Branquinha.  Houve quem anunciasse que a musa (a diva) da cidade havia falecido e que Ouro Preto nunca mais seria a mesma sem a presença daquele animal.  Houve quem postou um vídeo no youtube sobre a importância de Branquinha na cidade.  Metaforicamente, Branquinha passou a ser um dos focos da câmera do turista (evacuava dinheiro?).  Então, houve a profanação -  os sinos plangeram em honra de uma cadela...

            Sou e serei sempre em favor da defesa dos animais.  Ouro Preto é uma cidade cheia de cães e gatos que precisavam de afeto.  Todavia, morrem de fome, de sede e de doença porque quase ninguém os percebe – são invisíveis à maioria dos moradores, que só sabem reclamar das fezes nas ruas, do cheiro de urina e outras coisas mais. Na morte, esses animais são levados para o depósito de lixo local, onde, de acordo com alguém que mora por perto, são enterrados.  Por que Branquinha recebeu tratamento diferenciado?  Creio que sei a resposta -  foi condicionada pelo complexo de Pavlov e submetendo-se aos homens, conseguiu tudo o que queria. 

            Como observadora de tudo o que ocorre em minha cidade, li e guardei as manchetes sobre Branquinha e fiquei impressionada porque, apenas alguns dias depois, faleceu uma das guardiãs da memória da catedral que fez soar os sinos para a cadela – apenas um morador da cidade postou nas redes sociais a falta que aquela anciã de quase cem anos faria para a cidade e para a Basílica do Pilar.   Menos de uma dezena de comentários foram postados e pronto, acabou.  Até hoje, entretanto, ouço falar da cadela Branquinha... 

            Fique contente onde estiver, Ariano Suassuna.  Suas palavras se tornaram imortais  na magnífica e estupenda cidade de Ouro Preto.





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