-- Animais & Cia
-- Atualidades
-- Cidades
-- Ciências e Tecnologia
-- Coluna Social
-- Crônicas e Poesias
-- Educacao
-- Empresarial
-- Entretenimento
-- Esportes
-- História e Literatura
-- Humor
-- Informática
-- Internacional
-- Jovens
-- Justiça & Direito
-- Meio Ambiente
-- Pais e Filhos
-- Política
-- Religião Cristã
-- Religião Outras
-- Sexo
-- Terceira Idade
-- Turismo
-- Vida e Saúde
-- X Diversos
.

 
 

Você está em Educacao
 
Elisabeth Camilo

[ Elisabeth Camilo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Tradutora, jornalista e mestra em Letras - Linguagem e Memória Cultural.

 

Pátria educadora, falência no letramento e na educação

            Sou daquele tempo em que não havia o estudo do português nas escolas – havia o ensino da “língua pátria”.   Observemos, por favor, a desinência: língua pátria. A língua era um dos símbolos da nação.   Falar o português com cadência e acerto era um orgulho para todos os brasileiros.  Minha avó era analfabeta, mas usava o português falado como hoje faz um doutor em linguística: minha neta, por favor, vá até o portão e retire de lá o cavalo que ele agora hospeda”.  Isso mesmo, era assim que ela me pedia para tirar o equino que resolveu parar na entrada de nossa casa para comer a grama verde.  Hoje, a gente escuta pais dizendo para os filhos: menino, vá na porta e toca o cavalo.  Para mim, soa estranha a frase, porque o tu e você se misturam (vá você e toca tu), sem comentar que o garoto tem que subir na porta...

            Bem, os tempos mudaram, mas se alguém pode dizer que sente saudades da ditadura, metaforicamente eu sinto falta da ditadura linguística.  O garoto que se graduava na quarta-série do primeiro grau (era formatura mesmo, porque muitos paravam de estudar nessa fase) já tinha lido pelo menos dez clássicos da literatura portuguesa e sabia argumentar sobre eles.  Aquele menino já conseguia emprego porque escrevia bem uma redação, compreendia a sintaxe e primava na concordância.  Meu pai tinha apenas a quarta série primária e me ensinou a ler quando eu tinha seis anos de idade.

            Sinto-me bastante preocupada com o direcionamento da educação escolar hoje no Brasil.   Professores estão sempre em luta por melhores salários e quase nunca por melhor educação discente.  Obviamente, professores financeiramente mais supridos talvez trabalhem com mais afinco, mas todos os anos novas greves surgem em todos os segmentos da educação formal, levando a maior parte de nossos alunos a se graduarem em letras sem escrever corretamente um bom argumento.  O mesmo ocorre com os jornalistas, os advogados, os economistas, os médicos, os engenheiros e todas as outras profissões, mas o que mais me assusta é o comportamento linguístico temerário dos profissionais que formam o indivíduo que argumenta, entre eles os pedagogos e os professores de português.

            Estatísticas que comprovam que o brasileiro lê pouco ou simplesmente não lê conduzem ao resultado do ENEM: quase 600.000 estudantes zeraram nas redações.  Fico imaginando como eles tentaram escrever sobre um tema que estudantes universitários teriam dificuldade em argumentar:  a questão que envolve a criança, a televisão e a relação entre consumo e trabalho infantis devido a esse convívio.  Se não se lê, não se consegue produzir a crítica nem pelo menos expressar qualquer hipótese sobre o tema. 

            Ouvi o discurso de posse da presidente reeleita em nosso país.  Foi comovente a explicação que ela deu ao slogan eleito para nortear seu novo mandato: Brasil, Pátria Educadora.  Todavia, assustei-me alguns dias após o evento, com a notícia estampada na mídia de que o ministério que mais sofreria cortes nesse novo governo seria exatamente o da educação.  Então o slogan devia ser: Brasil, Pátria Educadora com a Educação com um Pires na Mão.  Por quê?  A resposta é simples: sem verba, surgirão novas greves, do ensino fundamental aos doutorados e pós-doutorados; as bibliotecas perderão sua finalidade, com livros que ainda se encontram com a velha ortografia e sem inovações em seus acervos.  Sem boa educação, alunos continuarão fingindo que se graduam, possuindo diplomas, mas nenhum letramento.  Sem letramento, morre a argumentação, a proposta de ideias a serem debatidas e tudo continuará no mesmo pântano, com pessoas que não compreendem seu verdadeiro papel na democracia:  o de saber votar e o de saber reivindicar dos eleitos a manutenção de seus direitos básicos (lembremos que a segurança foi a segunda área com maior corte no orçamento).

            Complica a mente dos meninos e meninas do Brasil a questão do preconceito linguístico, que algumas instituições escolares levam a sério demais e prejudicam seus alunos nos momentos de avaliação nacional.  Claro que vale a proposta de que se a mensagem conseguiu ser entendida, a função da língua se fez; compensa, todavia, relembrar, que os cabeçalhos das provas de redação são claros: escrever com letra legível e utilizando a norma culta.   Há alunos que hoje só escrevem em internetês, que abusam das gírias etárias e que não têm a menor ideia sobre suas próprias opiniões. 

            Por fim, não me surpreendi com o resultado do ENEM quanto às provas de redação e de conhecimento linguístico.  A pátria educadora está mudando de comportamento e se transformando numa pessoa perversa que estimula a não educação em todos os aspectos.  Cumpre-nos lembrar que isso pode ser proposital: país que não incentiva à leitura e à compreensão das realidades política, social e econômica de seu povo é país que aliena mentes que não produzem opiniões e se transformam em exércitos de conformados.  Não é assim que se chega ao topo do mundo. 





Você gostou deste artigo? Então compartilhe com seus amigos:

 
Facebook
Twitter: Google+

-------------------------------------------------------------------------------------------------------
s
s
------------------------------------------------------------------------------------------------------------

O botão de comentário acima irá acionar o colunista para te postar uma resposta sobre o comentário. Ou, se preferir, comente usando seu perfil do Facebook:




:: O mundo exige melhores educadores ( Educacao - Luisa Lessa )

:: Saber escrever é uma exigência do mundo atual ( Educacao - Luisa Lessa )

:: Somente uma palavrinha e... ( Educacao - Jorge Azevedo )

:: Português versus Inglês ( Educacao - Luisa Lessa )

:: O portugues do Brasil: proibições e heranças ( Educacao - Luisa Lessa )

:: Olhar científico e ideológico sobre o idioma português ( Educacao - Luisa Lessa )

:: Crítica aos críticos da Filosofia. ( Educacao - Roberto Bastos )

:: O tempo é um mestre ( Educacao - Luisa Lessa )

:: Mistérios e segredos da escrita ( Educacao - Luisa Lessa )

:: Educação como arte de bem viver ( Educacao - Luisa Lessa )

:: O fracasso escolar brasileiro ( Educacao - Luisa Lessa )

:: Acordo da polêmica ( Educacao - Nylton Batista )

:: O nível da educação no Brasil ( Educacao - Luisa Lessa )

:: Pilares da educação cidadã ( Educacao - Luisa Lessa )

:: Mudar a forma de ensinar e de aprender ( Educacao - Luisa Lessa )

:: Pós-graduações holísticas. ( Educacao - Roberto Bastos )

:: Educar sempre ( Educacao - Jorge Hessen )

:: Educação e gêneros. ( Educacao - Roberto Bastos )

:: Classificação tipológica das línguas do mundo ( Educacao - Luisa Lessa )

:: As palavras comandam a vida ( Educacao - Luisa Lessa )
 
 
LiveZilla Live Chat Software

 


   



Site administrado pela

Biblioteca ||  Classificados
Sala de Bate Papo