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Nylton Batista

[ Nylton Batista ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Redator de jornal há cerca de vinte anos. Também escreve contos, alguns dos quais publicados em antologias.

 

Ascensão social do bambu

Em tempo de tantas novidades, trazidas pela tecnologia a avançar sobre o infinito, conceitos também são revistos, o que era ultrapassado e colocado de lado se recicla, o antes nem considerado agora ganha valor e do que esteve no topo, às vezes, não resta pó. Na cozinha e na mesa, por exemplo, dois exemplos de pratos que, no passado, não tinham lugar entre os ditos de paladar mais refinado. Era comida de pobre, entre os mais pobres! 

De sua moita espinhenta, situada a um canto do quintal, a dona de casa catava as folhas suculentas e mais tenras do ora pro nobis (ou lobrobrô), então considerado o frango do pobre, para se preparar o guisado a ser saboreado com angu (não é pooolenta, não, cara-pálida). Levemente escorregadio, de sabor que açula o apetite, o ora pro nobis provia os menos afortunados de nutrientes que, somente agora se reconhecem na planta. 

Pois bem, o ora pro nobis se projetou na culinária, ganhou espaço no cardápio de restaurantes e é tema de festivais gastronômicos, sem deixar de ser o frango do pobre, se este cultivá-lo num canto de terra. Em restaurantes de cidades turísticas mineiras, o ora pro nobis é prato de destaque e caro, atingindo conceito bem diferente de cinquenta, sessenta anos atrás. Outro destaque, na gastronomia popular, embora com menor brilho, é o umbigo de banana. Outrora bastante consumido, ao lado do ora pro nobis, por pessoas de baixa renda, de repente, ele desapareceu do cardápio popular. Algumas gerações não o conheceram como comida, até seu ressurgimento, há pouco tempo. E aqui relato fato que atesta o esquecimento daquele que fora iguaria tão apreciada. 

Conhecido programa de televisão deveria fazer uma gravação em Cachoeira do Campo, focando a história local, seus costumes, cultura, etc. Uma das solicitações da equipe é que fosse apontado um prato típico. Um dos contatos locais consultou o autor desta coluna sobre o que poderia ser apontado como prato típico local. Sem pestanejar, foi-lhe dito: - umbigo de banana. Ao que ele reagiu estupefato: - mas isso se come?!... Ele não acreditou e foi apresentada outra coisa que não tinha nada a ver com a culinária local. Pouco depois, coincidência ou não, o umbigo de banana voltou ao cardápio local, incluindo-se o de restaurantes, e, para quem não tem bananeira no quintal, o umbigo in natura passou a ser encontrado em supermercado.

Mas, esta abordagem ao ora pro nobis e ao umbigo de banana que, de pobres passaram a nobres, serve mais para assestar a mira sobre outro material, que também sai da penumbra e promete altos voos na aplicação industrial. E ele nada mais é que o prosaico bambu com suas cerca de mil e trezentas espécies. Entre humanos, com exceção da subespécie “urbanoide”, acredita-se que todos conhecem e, de alguma forma, já utilizaram ou lidaram com bambu, alguma vez, na vida. Antes do muro, mais com a função de dificultar invasões, era o bambu que marcava limites, sem quebrar a política da boa vizinhança. E, às vezes, tais cercas eram verdadeiras obras de arte, tal era o capricho empregado por seus construtores: tamanho uniforme das peças de bambu, bem alinhadas mediante amarração perfeita. Com o mesmo material e mesma técnica eram construídos galinheiros. Na área rural, ele servia de encanamento à água levada ao terreiro da residência; móveis rústicos eram com ele improvisados; pessoas mais habilidosas, de veia artística-musical, dele se valiam para a fabricação de flautas; e os forros das casas se fazia com a taquara, outra espécie de bambu, a mesma ainda hoje utilizada por artesãos de Lavras Novas/Ouro Preto, na fabricação de cestos, balaios e outros diversos objetos. Não se pode esquecer das “bombas”, que se resumiam em gomos, previamente enchidos com água, arrolhados e colocados nas fogueiras das festas juninas. Os estouros eram festas à parte! 

Mais que produto industrial, largamente anunciado na televisão, o bambu era, verdadeiramente, das mil e uma utilidades! Era e continua a ser, mais do que nunca, com a constatação de  sua dureza e resistência, o substituto ideal, ecologicamente correto, para a madeira, cuja utilização descontrolada pode fazer da terra um só deserto. Pisos e placas de revestimento, bem como outros itens feitos de bambu, deverão substituir a madeira, no acabamento de construções, com grandes benefícios à natureza e à economia, de forma geral. Ao contrário da madeira comercial, que leva, em média, trinta anos para se desenvolver, o bambu se desenvolve no prazo de três a seis anos e se recompõe, naturalmente, após o corte. Adaptável a diferentes climas, dispensa replantio e suas raízes, mediante verdadeiro emaranhado no subsolo, revertem a instabilidade de solos, o que recomenda seu plantio em áreas passíveis de escorregamento de rochas. 

Como o início deste texto focou em itens da alimentação popular, registre-se que o bambu, além de todas estas e outras utilidades, também fornece alimento. Seu broto, rico em nutrientes, sob a forma de conserva se assemelha e pode ser considerado o palmito do pobre!





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