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Nylton Batista

[ Nylton Batista ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Redator de jornal há cerca de vinte anos. Também escreve contos, alguns dos quais publicados em antologias.

 

A praga do século II

Na última edição do ano passado, com o mesmo título acima, focalizou-se aqui uma entre as diversas tragédias vividas neste imenso território, dito descoberto pelos portugueses e habitado por sua descendência, à qual se misturaram gentes de todos os quadrantes do planeta. 


Se existem mesmo diabos, para tentar, atormentar, provocar e atentar contra o ser humano, o Aedes aegypti deve ser um, e, contra ele, pior estamos, pois não existe reza brava ou exorcismo que o afaste. Até agora, embora anunciem vacina em fase de teste, o safardana entre os insetos tem ganhado em todas as frentes, atormentando a população, deixando as autoridades médicas de cabelo em pé contra as surpresas, que ainda poderão vir do vilão, e assanhando oportunistas de plantão, que ganham notoriedade com exposição na mídia. 


Ao falar em surpresas, tão ao gosto do xexelento mosquito, desde aquela abordagem, seu saco de maldades mostrou mais dalgumas, entre as quais a que pode provocar a síndrome de Guillain-Barré (pronuncia-se guiiã barrê), doença que, numa visão bem restrita, causa enfraquecimento dos músculos, seguido de paralisia progressiva dos membros, podendo provocar a morte, se não tratada imediatamente. A todo o momento surgem novas informações sobre o que pode transmitir ou provocar o Aedes aegypti, de acordo com o vírus de que está infectado. O danado do mosquito, em sua malvadeza, parece dotado de alguma inteligência ou dirigido por outrem, pois entre todas as doenças que já trouxe à humanidade, somente a febre a amarela foi vencida pela ciência, mediante vacina. As demais, dengue, chikungunya e zika continuam sem solução e ainda aparecem intervenções do zika vírus a causar a microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré. Vencido na primeira investida, deve ele ter pensado, se é que mosquito pensa: “esperem para ver o que vou lhes arrumar”. Pensou, passou à ação, e, agora estamos nós às voltas com essa coisa. 


Pela extensão do mal, que avança pelo planeta, desde a maneira como o inseto se comporta, prolifera e causa moléstias, o combate a ele deve-se proceder de forma coletiva, em que nenhum indivíduo ou, pelo menos, nenhuma edícula ou morada pode ficar de fora. Está de acordo com a lógica e é para essa ação que o público tem sido conclamado. Mas, ela é exequível na prática e suficiente para derrotar o mosquito? Duvida-se, e muito, disso!  


Como parte da educação a ser ministrada com relação ao problema, sabendo-se ainda que seus resultados só virão a longuíssimo prazo, tudo bem, não se discute sua validade, mas a extensão dos estragos em andamento na saúde pública exige muito mais. Ao longo dos anos, o mosquito foi deixado muito à vontade pelos governos, que lhe deram pouca ou nenhuma atenção, ocupados que sempre estiveram com um ufanismo besta e assentado, nomeadamente, no desempenho futebolístico, ora decaído, e, no carnaval de palco da Sapucaí.  A dengue não foi introduzida assim como é e ataca as pessoas, atualmente. A princípio, a doença não apresentava características tão graves, destacando-se entre os sintomas o corpo mole, daí o nome dengue, que lhe foi dado. Em lugar de estudos sérios sobre sua origem, desdobramentos e consequências, concentraram-se as atenções nos sintomas, então de mais fácil combate.


 Sem encontrar maior resistência, no meio onde atuava o mosquito, a doença alcançou estágios mais perigosos, evoluindo até provocar morte. Ainda assim, praticamente nada se fez, para conter o avanço do mosquito em sua sanha contra a saúde pública. Portanto, a situação atual é consequência direta da omissão governamental e não por culpa do povo, desamparado em todos os sentidos, em consequência da falta de políticas públicas sólidas e sérias, nas áreas da educação, da saúde e do desenvolvimento em geral. Na verdade, o povo está perdido no meio das discussões politiqueiras, a envolver, praticamente, três dúzias de partidos, cujos ideais em proveito da nação não vão além de palavras vãs e promessas que não se cumprem, quando não a esconder intenções de desviar para o próprio quintal o que pertence à área pública. 


Depois de tudo isso, não é com a pirotecnia oficial, tendo à frente a presidente da República e seus ministros, que erros serão corrigidos ou compensados, instalando-se então o bom senso, a competência, a boa administração dos recursos públicos, na solução de problemas que dizem respeito ao bem estar coletivo nacional. Mais do que no oba-oba das ruas, o combate ao Aedes aegypti e às doenças por ele transmitidas deve ser travado no silêncio dos laboratórios, aos quais não se deveria regatear recursos que, para setores e causas de baixa prioridade, são liberados à mancheia.






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