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Jorge Azevedo

[ Jorge Azevedo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

No mundo de papelão


Havia sobre a cama de papelão
a mancha rubra de sangue
esmaecida pela ação da urina,
em lugar de travesseiros, garrafas
e latas de cachaça embriagadora.

O corpo frágil anda tremia,
cabeça enterrada entre mãos,
mãos sujas entre os joelhos
escondendo o rosto envergonhado
para não mostrar os olhos tristes
aterrorizados pelo pavor do ato.

Havia, no outro lado da praça,
homens sentados diante do carteado,
cercados por garrafas e latas vazias,
grudados em suas mãos, copos cheios
de cachaça e rodelas de limão e caju...

Em um deles a mancha de sangue,
esmaecida pela ação da urina,
manchando sua bermuda sem zíper.

Havia uma cama de papelão,
a mulher chegando com outro filho
encangado na cintura como um estorvo,
olha a menina, a roupa rota, grita,
larga o filho, carrega a filha, chora,
olha o homem que sorri sem dentes,
e leva à boca o copo com cachaça.

A filha ainda menina, nem sete anos tem,
encangada como se não fosse um estorvo,
atravessa a rua para onde estão os homens,
a faca surge em sua mão, cartas voam,
homens pulam e correm, menos um...

Esse não tem tempo, o sangue jorra,
sua garganta está aberta e ele se mija
esmaecendo seu sangue ensopando
a bermuda sem zíper para fechar,
sobre a cadeira de papelão.





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