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Jorge Azevedo

[ Jorge Azevedo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

O dia que eu voltei para a estrada por causa de Rita


Um violão, uma estrada,

a mochila nas costas,

a alpercata de couro,

a calça desbotada,

poeira de caminhão

na rua não calçada.


A linha do trem à direita,

a esquerda uma montanha,

a casinha dentro da mata,

em revoada que me assanha

um bando de rolinhas cinzas

na direção da cascata.


Eu, minha solidão e a saudade,

nem parece mundo com tanta gente,

eu, meu violão e o silêncio,

até pareço um ser único insurgente,

eu, a saudade e o violão,

sentado olhando o fim em minha frente.


A mulher na beira do rio

batendo roupas na pedra,

um barqueiro atracando

cheio de potes e tranqueiras,

meninas correndo na beira

do rio, com saias levantadas.


Eu sentado na murada do rio,

o violão preparado para acordes,

passa um homem guiando bodes,

uma mulher com sorriso de oferta,

dedilho notas de uma canção minha

e canto em silencio saudades dela.


Na mochila somente uma coberta,

um par de meia para o frio,

duas cuecas já tanto viajadas,

escova de dentes sem tubo de pasta

um sabonete, de tão fino parece,

lâmina de vidro tão débil, parece de água.


Na cabeça, vontade de aventura,

para que pensar onde dormir mais tarde,

alguns jogarão moedas no boné

pensando que sou um cantor pedinte,

quem sabe alguma não me ofereça colo

e me ouça cantar roncos na madrugada?


A praça cheia de gente, sou mais um,

acabou a missa, a quermesse começa,

olho as daminhas com roupas engomadas,

rapazinho com vestimentas de domingo,

cabeleiras delas suavemente espichadas,

cabeleiras deles selvagemente despenteados.


Sou mais um na praça emprenhada de gente,

gente que passa por mim e nem me fala,

e sigo anônimo, sozinho vou em frente,

eu, a mochila, o violão e minha saudade,

cantando com alma a saudade dela

e ela nem sabe que sigo como um errante.


O parque de luzes coloridas, a roda gigante,

alguém oferece a alguém uma canção de amor

pelo serviço de alto falantes postado nos postes,

numa briga de rua entre mulheres, há corte,

apitos surgem com os policias sem nome no peito,

levam pra cadeia a mulher com dente de ouro.


Raia o dia, mais um dia em minha caminhada,

conto os trocados ganho na praça ontem,

tem dinheiro de sobra para o café matinal,

dá até para um banho na rodoviária mirim,

um maço de cigarro e ainda sobra algum

pra juntar com o que hei de ganhar mais tarde.


Troco de roupa, tiro a camisa suada,

preciso comprar urgente outra alpercata,

amarro uma tira na sandália esquerda

pra segurar a tira que se partiu na noite

enquanto eu subia a escada de barro molhado

para buscar costado onde encostar a carcaça.


Eu na madrugada fria e meu violão,

a mochila servindo de travesseiro,

de alento tomo emprestado da solidão,

um punhado de poema aventureiro

e transformo em confortável colchão

meu sonho de ganhar muito dinheiro.


Se rico, eu penso, eu volto e encontro Rita,

de beiços pintados com batom bem vermelho,

de unhas tão grandes pintadas de azul,

de vestido tão curto mostrando a calcinha,

se rico eu volto, eu penso, e encontro Rita,

lhe tiro do cabaré e lhe faço só minha.


Aposento minha mochila,

despeço de mim a saudade,

viverei com Rita toda felicidade,

eu, ela, o violão e os poemas,

beberei de sua boca seus beijos

e serei fonte de todos os seus desejos.


Eu, a estrada, meus sonhos e a mochila,

do lado direito destino sem rumo,

do lado esquerdo um coração amargurado,

à minha frente estrada com poeira,

atrás de mim uma história sem começo,

e sigo eu buscando sem buscar meu amanhã.


Um dia, tenho certeza, este dia não tarda,

Deus olhará para mim, me fará compor

ama canção sertaneja, alguém gravará,

fará sucesso minha canção, serei conhecido,

melhor que tudo, ficarei muito rico

e quando Rita, em algum lugar souber...


E se Rita não estiver mais onde chega

a canção de amor que eu compus para ela,

se seguiu aventureira algum garimpeiro

com promessa de lhe fazer rainha do garimpo,

e se Rita não ouvir a canção que eu fiz para ela

adiantará eu ter tentado tanto ficar rico?


E se alguém numa noite de dança cigana,

se engraçou por ela e dela tomou posse,

montou casa com geladeira e liquidificador,

comprou vestido que lhe cobre os joelhos,

botou aliança em seu dedo de ouro amarelo

e lhe dei de presente um nome de respeito?


E se ela emprenhar e nunca mais quiser saber

da vida levada que lhe fazia chorar envergonhada,

se tiver se tornado uma dona de casa prendada,

adiantou eu ter saído pelo mundo com meu violão,

ter composto uma canção sertaneja e ver tocando

em todos os cabarés como se chamasse por ela?


E se ela tomou gosto da nova vida de agora

e quando me ver não quiser saber de mim?

Mesmo eu me jogando aos seus pés, de joelho

jure por todos os santo, jamais me conheceu...

Restará somente eu olhar para os seus olhos,

enxugar minhas lágrimas antes de dizer adeus.


Eu, minha mochila já tanto gasta,

o violão com cordas partidas,

a solidão companheira...

Novamente a estrada à minha frente,

tão só num mundo de tanta gente,

eu, minha mochila, a saudade e a solidão.





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