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Jorge Azevedo

[ Jorge Azevedo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

Mãe, não me espere para jantar

O dia parece como tantos dias... O Sol bate na janela, o cachorro late diante do entregador de leite. Barulho de carros, barulho da carroça do homem que vai para a feira, barulho de café na mesa, barulho de irmãos, de pais que se arrumam para começar o dia na lida de cada um.

Um dia normal como tantos outros dias. O rapazinho está deitado, barriga para cima, olha o telhado por onde passa raios de Sol. Na mão direita traz um terço de contas verdes. Na mão esquerda carrega um livro pequeno de capa preta com letras bordadas em ouro... O espelho do livro é dourado. Ele não se mexe, mesmo com todos os barulhos da casa e da rua, ele não se mexe. Permanece deitado, olhando para uma telha, uma telha específica, como se conversasse com ela. Ele não pisca, ele não movimenta nem um dos seu músculos faciais. Não mexe os lábios e sua respiração é tranquila. Ele continua olhando para uma telha, como se através dela encontrasse respostas ou buscasse perguntas.

Depois de algum tempo levanta. Fica sentado na cama, a cabeça olhando o chão, as duas mãos espalmadas na cama como se segurasse o seu corpo. Os pés descalços, o peito nu, veste somente um pijama curto, decorado com pequenos quadrados coloridos. Os pés descalços procuram os chinelos. Levanta a cabeça, olha a cortina de renda. Olha o armário, cada canto das paredes revestida de tinta azul. Se levanta sem esforço da cama. Dobra o lençol que lhe cobria, estica o lençol que recebeu seu corpo, arruma o travesseiro cuidadosamente, passa as mãos sobre o colchão para eliminar todos os vincos do lençol.

Da gaveta tira uma camisa e uma bermuda. Pega a toalha descansando no espaldar da cadeira de madeira envernizada.

A sala já está silenciosa. O pai já saiu, os irmãos já saíram. Só tem na casa ele e a mãe. Beija-a no rosto como faz todos os dias. Vai ao banheiro, se banha, se asseia, volta já vestido. Senta-se na mesa. Serve-se uma fatia de inhame, uma xícara de leite e fica olhando a mãe e seus afazeres de limpeza e almoço. Uma lágrima escorre em sua face e ele seca rapidamente escondendo da mãe. Não quer que ela o veja chorando, chorando como se estivesse se despedindo. Não quer que ela o veja triste no dia que será o dia mais feliz de sua vida.

Levanta-se da mesa, vai para o seu quarto, deixa tudo impecavelmente arrumado, organizado. Sai. Toma a mãe em um abraço, aperta-a, beija-lhe a face, jura-lhe amor e carinho. Sai. Antes de transpor a porta se vira e diz-lhe...

"Não me espere para o jantar".

Ela sorri para o filho. Quantas vezes ele trabalhou até mais tarde e não chegou cedo para o jantar? Ela arrumava seu prato e colocava em cima da bancada do fogão de lenha. O braseiro mantinha a janta do filho quente, assim quando ele chegava, mesmo quando ela estava dormindo, a janta estava lhe esperando. Esse dia seria somente mais um dia.

Ele passa no campinho de terra batida, chuta a bola que veio em sua direção. Abraça os amigos, os mais chegados ele demora mais um pouco no abraço. É comum esta atitude. Passa no Centro Escolar, fala com alguns professores. Entrega um ramalhete de flores silvestres à sua namoradinha. Não lhe beija os lábios e nem se aperta em seu corpo como costuma fazer.

Sai caminhando até a oficina onde trabalha como ajudante de serralheiro. Chega, senta no banquinho de ferro, coloca a cabeça entre as mãos e fica olhando suavemente para todos, para as máquinas e para as ferramentas, para as grades e para o chão cheio de pontas de ferros e arrebites. Parece não ouvir o barulho das marretas nos ferros; parece não ouvir o zumbido da serra elétrica cortando pedaços de ferro. Está sereno...

Levanta sem dizer única palavra, caminha em direção ao rio. O rio está cheio, é época de chuva, época de frio, época de festa na igreja, tempo da praça se encher de gente na hora das orações. O rio está cheio, quase toca na ponte de madeira por onde passam as cabras todas as manhãs. O rio está cheio.

Ele senta em uma das margens e fica tranquilamente acompanhando um galho de árvore sendo levado rio abaixo. Tira do bolso o terço, enrola na mão direita e ali fica, imóvel, impassível por quase meia hora.

O Sol começa a guardar as copas das árvores sob as copas. A sombra do seu corpo começa a se esconder sob o seu corpo. Ele levanta e caminha. Agora resoluto. Passos largos e ligeiros, como se tivesse tomado uma decisão, como se soubesse o que iria fazer. Parece que agora ele sabia o que queria fazer, o que teria que ser feito.

Se interna na mata e vai por um caminho estreito, cercado de troncos úmidos, de palmeiras espinhosas, pedras arredondas cobertas por musgos, samambaias vigorosas atapetavam as paredes das encostas. Pássaros trilam seus cantos, sapos coaxam perto e distante. Ele caminha, os passos retos e decididos até chegar no descampado. No descampado ele avista primeiro a camionete cinza, logo depois a cabana. Há dois homens na porta da cabana. Há uma mocinha vestida de vestido comprido, os cabelos guardados em um turbante preto, sentada na carroceria da camionete. Ela o vê. Fala alguma coisa para os dois homens, eles se viram, quando o veem se curvam numa atitude de respeito.

Dentro da cabana há outros homens, há uma mesa, uma cadeira forrada com um tapete Bokhara, sobre a mesa quatro pratos, no meio da mesa um pernil assado, uma travessa com arroz branco e salada de folhas verdes. Uma garrafa de vinho e quatro taças. Um dos pratos é folheado a ouro e folheada a ouro é uma das taças. Os talheres desse lado são dourados, como sendo em ouro. Ele senta-se nesse lado. Tudo no mais respeitoso silencio. Comem lentamente, bebem. A mulher entra na cabana, tira tudo de sobre a mesa. Forra a mesa com um tapete afegão, Kelim. Todos se ajoelham voltados para uma mesma direção. Entoam um mantra, depois uma prece fervorosa. Um dos homens se levanta, profere algumas palavras dirigidas a Alá. Cala-se.

O rapazola levanta-se, vem em sua direção, abraça-o demoradamente. Todos se levantam e se perfilam. Ele caminha na direção de cada um, abraça-os, trocam algumas palavras e começa a vestir-se. Sobre a mesa foi colocada a armadura de explosivos e a armadura de explosivo agora está em seu corpo. Ele veste a japona tipo militar, beija a boca da mulher, abraça uma vez mais cada um dos homens, sai da cabana e antes de entrar na caminhonete olha para o céu, faz uma apaixonada prece a Alá, se curva respeitosamente e sorri feliz como se soubesse o quanto é importante para Alá o que está prestes a fazer. Entra na camionete.

Exatamente às dezoito horas, quando a praça fervilha de fiéis para suas orações ele se põe no meio da multidão. Olha para o céu com o olhar tranquilo de agradecimento e fé, faz sua última prece e antes de apertar o botão fala mentalmente...

"Mãe, não me espere para o jantar, hoje jantarei com Deus!".






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