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Jorge Azevedo

[ Jorge Azevedo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

Borras de café

Excessivamente branca a toalha da mesa. Lembrei-me do tempo de criança, quando as mulheres usavam anáguas engomadas, lavadas com anil. O branco ficava com espectros de azul tão sutil que o branco parecia mais branco. Lembrei-me das roupas quarando no terreiro e as mulheres lavadeiras batendo roupas nas pedras. Naquele tempo o branco era mais branco porque era tratado com carinho. Não sei se havia água sanitária, se havia, eu não me lembro. Lembro mesmo era da pedra azul de anil. A roupa mergulhada na bacia com goma, o ferro de carvão passando a roupa branca sem marcar, sem queimar, sem amarelar o branco.

A mesa posta, com prato de alumínio brilhando que nem espelho. Louça de porcelana era para dia de festa ou almoço de domingo. Louça de porcelana ficava guardada na cristaleira com chave passada nas portas, junto de taças de cristal e xícaras com linha dourada na borda. As prateleiras de vidro forradas com toalhas de papel de enrolar pão, fazendo embainhado com recortes desenhados. Eu gostava de dobrar a folha de papel, normalmente verde, ou amarela, rosa, ou azul. Pegava a tesoura e ia desenvolvendo minhas ideias criativas. Criava os meus desenhos, tipo moldes vazados e forrava as prateleiras onde ficavam deitadas as porcelanas e os cristais.

A vida era mais calma, era mais tranquila. Os filhos sabiam o que era ter pais e pais sabiam o que era ter filhos. Quando as obrigações profissionais permitiam, o chefe da casa, naquele tempo, normalmente o pai, o marido, era o chefe da casa... Quando as obrigações profissionais permitiam, o chefe da casa sentava em uma das cabeceiras da mesa e todos faziam a primeira refeição juntos. Quando não era possível, a mãe tomava o lugar de chefe da casa e sentada na cabeceira da mesa, dividia o pão, o cuscuz, a batata doce ou o que tivesse com cada um dos filhos e cada um dos filhos, independente de ser o mais velho ou o mais novo, esperava pacientemente e aceitava o seu quinhão placidamente.

Naquele tempo os pais eram tratados como pais e os filhos eram tratados como filhos.

Finda a refeição, a toalha da mesa permanecia na mesa, escandalosamente branca, esticada, com o vaso no centro e as flores colhidas no mato enfeitando como se fossem flores compradas em boutique, na época, raridade até nas grandes capitais. Todos saíam para os seus afazeres. Estudantes iam para os seus estudos. Moleques iam para suas brincadeiras. A filha mais velha se entretinha com a vassoura e o responsável da vez seguia o caminho de "lavar o banheiro"... Naquele tempo, rara era a casa que tinha mais de um banheiro. Raro era o quarto que tinha banheiro no quarto. Mães iam para suas pias e fogões e a casa mergulhava em silêncio e perfume de família.

No coador de pano com cabo de arame retorcido e punho de madeira, a borra do café que seria jogada em algum vaso de planta como adubo. Alguém disse a alguém em algum tempo que borra de café é bom para as plantas. Não sobrava do café, nem as borras no tempo que filhos eram somente filhos dos pais e pais eram somente pais dos filhos.

Como eram tão simples aqueles tempos. Como são tão bucólicas estas lembranças. Como se tornam tão irreais os dias de ontem com os dias de hoje. Até as borras são diferentes...

No campo político estamos em mutação. Lula depois de esmagadora aprovação tornou-se crápula e hoje luta com todas as suas forças, tenazes e frágeis, contra as garras da lei e da justiça. Ele quando saiu, esqueceu-se de jogar em algum vaso de planta as borras de sua atuação política e a toalha da mesa, que era de linho branco, lavada com pedra de anil, mergulhada em bacia com goma e passada com ferro de carvão por alguma negra remanescente do tempo que todo empregado doméstico era negro e analfabeto. A toalha ficou manchada pela borra que Lula deixou. E ficou sem vaso de flores, o centro da mesa.

Dilma chegou como a filha mais velha, com a vassoura nas mãos para não deixar sujeira sobre o tapete. Trocou a toalha da mesa. Não precisava ser mais de linho, nem engomada, nem passada por uma negra remanescente do tempo que negro era escravo, que negro era empregado doméstico. Foi servido café na mesa forrada com toalha de mesa branca e os filhos do poder, sem respeitar o poder como seus pais, não cuidaram da toalha e mancharam-na com suas borras. Ao sair Dilma deixou a mesa com manchas amareladas e avermelhadas. Ela não soube ser mãe para educar seus filhos e seus filhos sem educação não a tiveram como mãe e a expulsaram de casa.

O filho mais próximo, aquele que ela criou, educou e ensinou a engatinhar tornou-se dono da casa, chefe da família, passou a sentar na cabeceira da mesa junto com seus filhos, mas, seus filhos são independentes e não precisam mais dos conselhos do pai. São ricos e querem ficar mais ricos. São poderosos e querem ser ainda mais, poderosos. São fortes, tão fortes que a força do pai se torna fraca diante deles e juntos, sentam à mesa para o café da manhã e quando levantam a toalha está manchada pelas borras de café de filhos que somente enxergam entre si, quem será o próximo a sujar com borras a toalha de decência.

Tudo mudou desde aquele tempo que o político subia no palanque e prometia jogos de camisas de futebol e asfaltamento de ruas. Hoje o político sobe no palanque desafiando o político a provar que em seu passado "há mais borras que no meu".






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