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Jorge Azevedo

[ Jorge Azevedo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

A morte do prisioneiro


Doce amada que distante não escuta
nas noites a luta, meus gritos em vão,
sou pobre enfermo no catre deitado
compondo um verso para a solidão.

Que mal lhe fiz, oh! Vida madrasta,
cercou-me de vasta, planície sem luz,
uma pequena seteira onde uiva o vento
o perfume dos lírios a mim me conduz.

A filha querida que em seus braços descansa
diz-lhe que em mim não cansa, a sua saudade,
traído que fui por amigos vestidos de inveja,
hoje me encontra a vergonha da iniquidade.

Doce amada, quantos prantos lhe fiz derramar,
não sei o que está a imaginar, desde aquele dia,
chegaram os homens algemaram meus braços
me puseram a ferros sem direito a carta de alforria.

Do que sou acusado até hoje me escondem eles,
não passo pelo que sinto de reles, cordeiro ao léu,
o que fiz? Senão gritar as injustiças ao meu país,
é motivo para transformarem-me em rancoroso réu?

Doce amada que distante não escuta
nas noites minha luta, os gritos em vão,
sou um pobre enfermo no catre deitado
transforma-me em versos, a canção.

Um dia quem sabe, do cativeiro injusto me liberto
e veja o grande portão aberto, a estrada sem fim,
além da estrada as montanhas que lhe cercam
afastando meus dois grandes amores, de mim.

Não voltarei alimentando ódio dos amigos traidores,
nem lhe condenarei senhores, do meu grande sofrer,
somente ter de volta os seus beijos e seus abraços
será a recompensa que terei para alegrar meu viver.

Enquanto eu não chego de mim não esqueça,
peço que a dor não esmoreça, sua força de lutar,
torne-se o pai de nossa filha ainda tão menina,
nunca ensine a ela a arte maligna de saber odiar.

O perdão ainda é o melhor elo para encontrarmos a paz
mesmo quando dentro da gente se desfaz, a esperança,
aqui nesse catre imundo onde me faz companhia, ratos,
fortalece-me somente o amor a você e a nossa criança.

Se de mim, entretanto faltar notícias, apenas chore,
não deixe que a dor demore e invada o seu dormir,
morto que eu esteja, estarei em descanso deitado
velando por certo por seus dias enquanto existir.

Doce amada que distante não escuta
nas noites minha luta, os gritos em vão,
lhe tiraram o meu corpo repleto de vida
e me devolve, embalado, em torpe caixão.





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