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Jorge Azevedo

[ Jorge Azevedo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

Fábrica de pirulitos

Houve um tempo que as praças eram invadidas pelos baleiros, as tardes de domingo não eram tardes de domingo se o baleiro não passasse fazendo trilar o seu sininho ou o triângulo... De longe a gurizada via o baleiro chegando, pelos ouvidos. Alguns usavam guizos para serem vistos ininterruptamente. Os pais já sabiam, guardavam alguns trocados somente pela alegria de viver a alegria da criançada no portão, na calçada, na confusão diante de tantas guloseimas enroladas em papéis coloridos. Os menores gostavam mesmo de pirulito.

Quando o baleiro partia para fazer mais alegre as tardes de domingos de outras ruas, iam muitos, para as praças ou jardins com os seus pirulitos, chupados gostosamente, gulosamente, preguiçosamente. O medo da criançada era o pirulito chegar ao fim e ficar em suas mãos somente o palito. Existia somente o medo de o pirulito acabar e ter que esperar até a próxima tarde de domingo. Éramos felizes naqueles dias e não imaginávamos como éramos felizes naqueles dias.

Hoje eu passo pelas praças, nas tardes de domingo e não vejo crianças com seus pirulitos, vejo crianças com tabletes e celulares. Fico sentado nas praças esperando ver, pelos ouvidos, a chegada de baleiros e não escuto seus guizos, nem seus triângulos, nem seus sininhos, alguns tocavam rudimentares gaitas e não escuto as gaitas sento tocadas nas tardes de domingo, nas praças e nas ruas onde pais não precisam mais guardar trocados para a alegria de sua gurizada.

O que está acontecendo com nossa juventude eu não sei. Não sei se há culpados ou se há vítimas, não sei se há coitados ou se há desamor, o que sei, e fico triste em saber, é que faltam fábricas de pirulitos nas cidades do meu país. Lembro-me bem das fabriquetas que nós, crianças inventávamos para fazer pirulitos. Bastava uma panela, um litro de água, algumas xícaras de açúcar, papel colorido, daqueles de enrolar manteiga... Manteiga era comprada enrolada em papel de seda e depois enrolada em papel de pão que podia ser verde, rosa ou amarelo, depois surgiu o papel pardo. Eu me lembro da minha fábrica de pirulito. Uma caixa de sapato cheia de areia. O papel cortado e enrolado em forma de cone. Enterrávamos na areia o melado, esperava um pouco, quando começava a endurecer colocávamos o palito e estavam prontos os pirulitos, quando nossos pais não tinha dinheiro para comprar na mão no baleiro.

As tardes de domingo se enfeitavam com crianças e seus pirulitos de papel colorido e os vizinhos repartiam entre si e iam todos para a praça e nem ligavam quando o baleiro passava. Éramos felizes naqueles dias e não imaginávamos como éramos felizes naqueles dias. Hoje nossa felicidade é imaginar que nossos filhos não se transformem em presidente da republica no Brasil, assim não viveremos o pesadelo de imaginá-los dormindo em cadeias, de vê-los taxados de ladrões, de sabê-los chefes de quadrilhas... Não está faltando homens dignos no Brasil, no Brasil está faltando fábricas de pirulitos, no tempo dos pirulitos os homens eram respeitosos e as crianças filhas desses homens, ao chegar na escola não ouviam dos seus coleguinhas "seu pai é rico porque roubou meu pai que é pobre".

Acho que o filho do presidente Temer gostaria de ter vivido no tempo das fábricas de pirulitos.





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