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Jorge Azevedo

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Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

O amor é um sentimento interino

O amor é um sentimento interino. Não devia ser. É! E é porque o amor é mutável, não é definitivo, do começo ao fim. Mente quem diz "amo com a mesma intensidade, todos os dias, quem eu amo"... Mente!

O amor sofre oscilações. Oscilações ascendentes e cadentes, é natural do ser humano, ou do ser vivo. Até mesmo, os amores irracionais sofrem estas oscilações. Porquê aquele cãozinho tão meigo um dia agride seu dono? Dirão os analistas "foi estresse". Não foi. Foi consequência da oscilação do amor.

A paixão, não há sentimento mais oscilante que a paixão. Há dias que apaixonados estão com a libido em plena evolução, há dias que os apaixonados estão tão arredios que até o toque de um no outro provoca repulsa, o tato, o toque de mãos aveludadas se transformam em espetadas com luva forrada por espinhos de laranjeira.

Pais e filhos sofrem e vivem com muita frequência esta oscilação e traduzem pelos gritos "menino, como você está chato hoje!", ou "para mãe, você é cafona, não entende de nada!". E são esses mesmos que dentro em pouco estarão trocando juras de amor, um colocando na boca do outro, papinha de aveia brincando de aviãozinho.

Amantes em crises de ciume matam quem amam. O amor se transforma em ódio numa oscilação cadente monstruosa, maléfica, transformadora e transtornadora. Depois de tapas vêm os beijos. Depois das agressões chegam os pedidos de perdão, as juras de "nunca mais", as promessas frágeis de que "foi a última vez". Depois de agressões a oscilação do amor transmuta o amor em raiva, em desejo de vingança, em rompimento eterno e quem eram amantes são inimigos.

Se o amor não fosse um sentimento interino, não haveria rompimento de laços, sua linha não seria cadente e nem ascendente. Seria como a linha do horizonte, retilínea sempre. Sem curvas, sem gráficos, sem estatística. Não fosse interino o amor, o amor não provocaria divórcios de corpos, de almas, de pensamentos.

Pena, que as pessoas quando estão amando não olham o amor como uma situação passageira, assim, não toma os devidos cuidados. Ver o amor como rosas em um jardim e não reparam que, sob as rosas há espinhos e os espinhos muitas vezes abatem a beleza da rosa. Se os amantes imaginassem a provisoriedade do amor, tratariam o amor como uma barra de ferro. Se pomos a barra de ferro sobre uma superfície úmida ela enferrujará, se desgastará, se tornando feia e logo imprestável. Se, no entanto, pomos a barra de ferro sobre uma superfície seca, lhe aplicamos uma camada de verniz antiferrugem, lhe embrulhamos adequadamente e mantemos a barra de ferro guardada com todos os cuidados, jamais ela se tornará feira e desgastada. Estará sempre bela para ser exposta. O amor é uma barra de ferro, exatamente uma barra de ferro.

Sem exceção, todos já trataram o amor como se ele não fosse um sentimento interino. Como se o amor fosse um sentimento forte a todas as intempéries, não susceptível a agressões e rompimentos. Quantos não afirmam "meu amor é para toda vida" e seguem pela vida acreditando que o amor é uma fortaleza, capaz de resistir as flechadas de todos os lados. O amor é fraco, um dos mais fracos entre os sentimentos. Ele é frágil, carente e dependente. Qualquer desvio, ou deslize, aguça no amor o sentido de oscilação e é muita mais fácil a oscilação do amor ser cadente que ascendente.

O amor é um sentimento interino, pode não ser, se começarmos a tratar o amor como um sentimento interino.





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