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Jorge Azevedo

[ Jorge Azevedo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

A ultima pedra

O homem mal vestido, quase maltrapilho. A calça preta rasgada na altura do joelho. A camisa aberta mostrando o corpo esquelético. A sandália amarrada, cada pé de um tipo. A barba por fazer, emaranhada se misturando com a cabeleira sem trato. A japona tipo militar e o boné de propaganda de uma cervejaria. A mochila jeans jogada no chão. Não havia brilho em seu olhar quando eu passei e ele olhou para mim. Parece que pedia socorro, ou parece que queria ouvir apenas algumas palavras, ou falar. Não havia vida em seu olhar quando eu passei e ele fitou-me.

Caminhei alguns passos, continuando minha caminhada. Aquele olhar chocou-me, tocou-me, intrigou-me. Parei, olhei para trás, ele continuava me olhando, como se acompanhasse o meu caminhar. Entre decidido e indeciso, minha mente entrou em evolução. O risco de ser assaltado pôs-me em guarda. A praça estava semi deserta. Poucas pessoas iam ou vinham. Se fosse para ser assaltado, já teria sido. O homem olhava para mim, parecia querer falar, parecia querer ouvir. Voltei, lhe perguntei se podia sentar. Ele olhava para mim, o olhar sem vida, o olhar sem brilho. Não me dei conta do olor que se expandia do seu corpo. Notei o cachimbo em sua mão esquerda, ele me mostrou a pedra, parecia âmbar, fosco, sem polimento.

Suas mãos tremiam, sua voz tremia, ele chorou quando me mostrou a pedra. Colocou-a entre seus dedos polegar, indicador e o do meio. Ele disse "minha última pedra, queimarei minha última pedra". Só então entendi e vi a fisionomia do homem. O jeito fino de se portar, o jeito elegante de se portar e ele falou, contou sua história. Engenheiro civil, não se lembra quando começou, se lembra quando não podia mais viver sem a praga. Tinha muitas obras, ganhava muito dinheiro, tinha família, casado, pai de três filhos... Ele falava comigo como se falasse com a pedra. Falava comigo olhando para a pedra. Tinha muitos amigos. O vício começou a mudar sua personalidade. Precisava fazer amizades com outros da turma... Vagamente se lembra dos encontros com amigos engenheiros, médicos, advogados. No começo era brincadeira, farra na casa da praia de um, na fazenda de outro. Um dia descobriu que precisava queimar pedras, mais e mais. O dinheiro recebido de clientes não era destinado às obras, era destinado para compra da droga. Perdeu contratos, se separou da mulher, perdeu os filhos. Quando soube do divórcio já vivia pelas ruas. Um dia viu a filha, correu para falar com ela, ela correu dele e entrou num táxi, foi a última vez que se viram. Se largou de vez.

A pedra estava fixa em sua mão, olhava para a pedra como se através dela visse o filme de sua vida. Falou do apartamento de cobertura na avenida beira mar. Falou das férias com a família na Europa. Chorou quando se lembrou do barco, dos carros. As noitadas de vinho nas sexta-feiras, os empregados que se decepcionaram com ele. Sua mãe está na cama por causa do desgosto, seu pai, um engenheiro renomado, sofreu dois infartos por causa da tristeza. E ele disse que faria tudo diferente se tivesse uma oportunidade. Naquela tarde encontrou um dos seus amigos, engenheiro que nem ele. Pediu dinheiro, precisava de dinheiro. Seu amigo lhe deu dinheiro, mesmo sabendo que era para comprar droga e ele correu, comprou a pedra e quando comprou se lembrou do que disse o seu amigo "saia desta vida, largue o vício e conte comigo para se reerguer. Venha trabalhar comigo". Ele viu o carro do amigo se afastar, ele viu o amigo olhando para ele pelo retrovisor e viu que seu amigo viu ele correndo para comprar a pedra. A pedra estava em sua mãos há mais de 5 horas.

Ele chorava, copiosamente chorava. Segurando a pedra como se fosse sua vida, como se fosse sua morte. Olhou para mim e disse "esta será a última pedra de minha vida. Fumarei a última pedra e depois me internarei". Ele me mostrou o cachimbo como se fosse um ritual. Colocou a pedra, as mãos na altura do meu rosto. Suas mãos não tremiam. Ele acendeu o cachimbo, a chama clareou seu rosto, a pedra começou a queimar, ele ficou como extasiado, olhando a pedra queimando. Eu estava extasiado, vendo a pedra queimando. Ele chorava como uma criança. Falou de sua vida destruída, do destroço de família, o desmoronamento da saúde dos seus pais. Falou dos irmãos que nunca mais viu, dos sobrinhos. Falou de Mauricio, sobrinho e afilhado que nunca mais viu. Sua mão esquerda apertou minha mão. Não sei se foi um gesto de libertação, se foi um pedido de socorro. A pedra apagou. Ele jogou o cachimbo no chão, pisou em cima, esmagou com o pé, com o calcanhar. Tirou o boné e jogou fora, tirou a japona e jogou fora. Perguntou se eu o deixava usar meu celular. Dei meu celular para ele. Ele tirou do bolso da calça um cartão, fez uma ligação. Devolveu-me o celular e ficamos em silêncio. Ele disse apenas que estava pronto, disse onde estava. Não sei com quem ele falou. Não sabia se eu devia deixá-lo ou se devia lhe fazer companhia... Fiquei até que o seu amigo chegou. Pegou-o pelo braço e colocou dentro do carro. O homem chegou perto de mim, apertou minha mão e antes de partir com ele para uma clínica confidenciou-me "ele disse que hoje queimaria sua última pedra". Saí da praça pedindo a Deus que realmente para aquele homem aquela fosse, a sua última pedra.






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