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Jorge Azevedo

[ Jorge Azevedo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

O rótulo da garrafa de vinho

Diante de mim um mundo de garrafas, garrafas de tantas cores, tamanhos e formas. Estampando nos rótulos idiomas conhecidos e desconhecidos. Mesmo entre os conhecidos, muitos eu nem sabia pronunciar, pronunciando como a vista fotografa para a mente. Alguns eu lia como estava escrito e não sabia o que estava lendo... Há, entre os tantos, tantos que eu soletro e até entendo algumas coisas e entre as garrafas, há rótulos que eu conheço o que está escrito e sigo lendo traduzindo para mim.

As vinícolas em todas as partes do mundo se esmeram em criar os seus rótulos, muitos mantêm a tradição e são centenários, muitos se modernizam e se enfeitam, se colorem, se embelezam de tal forma que influenciam na hora da aquisição. Aconteceu comigo. Aquele mundo de garrafas, vinhos de todas as partes do mundo, nem sei se entre as garrafas havia algumas além desse mundo. Pegava uma, devolvia, pegava outra, lia ou fingia que lia, devolvia e achei a que eu queria. Achei não, ela me achou e me achou pelo rótulo. Pode não ser o rótulo mais bonito entre os rótulos das garrafas de vinho, mas, aquele rótulo...

Baco deitado em uma pedra, cercado de ninfas vestidas apenas por folhas de parreiras e cachos de uvas, algumas verdes, outras roxas, todas bem penteadas, belíssimas. Uma ninfa completamente nua, de beleza esplendorosa, derramava na boca de Baco, de uma ânfora, vinho como se fosse uma cascata. Uma cascata de vinho vertida de uma ânfora nas mãos de uma deusa da beleza, completamente nua. Olhei algumas garrafas e cheguei a me apiedar delas, dos rótulos nelas. Algumas eram somente letras brancas sobre fundo preto, outras, letras pretas sobre fundo branco... E o vinho? Eu pensei... Como deve ser rico o que há dentro desta garrafa e comprei o vinho como se tivesse encontrado as bençãos de Deus. Levei a garrafa com o cuidado de um pai diante do seu primeiro filho. Guardei a garrafa como se fosse a joia mais preciosa para ser ofertada à mulher mais amada.

 Eu queria chegar em casa, minha casa tão perto e parecia tão longe. Queria abrir a geladeira e deixar minha garrafa de vinho atingir a temperatura ideal. Olhei em minha agenda buscando nomes especiais, entre todos os meus amigos mais especiais, nenhum mereceu o convite para degustar comigo aquele vinho. Eu merecia tê-lo somente para mim. Talvez dedilhasse umas notas ao violão, violão não é merecedor de tamanha honra. Liguei o teclado e sintonizei o violino. Dedilhei Beethoven e acabei estacionando em Mozart. Arrumei minha mesinha, forrei com uma toalha renascença, guardada para momentos mais que especiais, normalmente uso para o primeiro café depois da primeira noite, acho que é para impressionar quem viveu comigo a primeira noite. Peguei minha taça Bacarat, usada pouquíssimas vezes, sentei-me com um dos meus livros abertos, declamei um poema... Finalmente estava na hora de abrir minha garrafa de vinho.

 Antes de abrir, fiquei namorando o rótulo, parabenizando o designer que o criou, a inspiração - a inspiração deve ter sido de Baco. Abri! Abri com o cuidado de quem anda numa trilha sabendo que pode ter minas enterradas. Abri com o cuidado de quem está num roseiral e quer justamente aquela rosa cercada por espinhos. Abri com cuidado como se a garrafa fosse o mais delicado vaso de cristal. Tirei a rolha, levei ao nariz para sentir a alma do vinho, não senti alma no vinho. Servi-me, na taça, umas duas colheres de sopa, do vinho. Agitei a taça para ver os riscos do álcool e da água deslizando nas paredes da taça. Olhei para o céu através de minha janela, fechei os olhos e fiz um agradecimento a Baco, a Deus, aos anjos, afinal somente deuses poderiam inspirar homens a criar um rótulo desse para um vinho desse...

 A língua sentiu o líquido gelado enroscar-se nela. Retraiu-se a língua. Esbugalhei os olhos... Olhei o rótulo, olhei a garrafa, olhei a rolha para ter certeza de que aquele vinho tinha saído daquela garrafa e aquela garrafa guardava aquele vinho. Pode não ter sido o pior vinho que provei, se não foi, está bem perto de ser. Peguei a garrafa, fiquei olhando o rótulo e imaginei...

 "Quantas vezes encontramos alguém em nossos caminhos, nos apaixonamos pelo rótulo e quando abrimos a garrafa, o vinho se transformou em um vinagre sofisticado e caro, somente. Quantas vezes amei o rótulo antes de conhecer o conteúdo".






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