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Jorge Azevedo

[ Jorge Azevedo ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Paisagista, Decorador, Professor e Poeta

 

Quero ser alguém na vida

"Sou filho de pais que não conheço, tenho irmãos que não sei onde estão, eu não quero continuar sendo o que sou, quero ser alguém na vida..."

Somente oito anos tem este menino. Oito anos!

Hoje trabalhei em uma ONG que abriga crianças até 12 anos, abandonadas pelos pais ou por filhos de pais que se encontram privados da liberdade. São 19 crianças hoje. Esse número é transitório "dias há mais, dias há menos" comentou comigo uma das tomadoras de conta.

Não são somente crianças que sabem andar, entre elas há crianças que nem sentar sozinha ainda sabe e já precisam ser fortes para se defender desse mundo tão áspero, tão mesquinho, tão malvado e tão diferente.

"Dizem que Deus gosta de crianças, acho que esse Deus não sabe que existimos"... Uma menina com somente 11 anos. Em apenas onze anos perdeu a crença. A esperança não é um dos elementos em sua receita de vida.

Trabalhei com essa turminha tentando levar para eles um pouco de afeto, um pouco de amor, um pouco de presença em uma vida tão precoce e já cheia com tantas ausências. Alguns sabem onde estão seus pais, alguns jamais souberam quem são pais são, muitos desses jamais saberão. Alguns serão adotados, terão possibilidades de crescimento, alguns desses, depois de crescidos, procurarão seus pais. Alguns encontrarão e ajudarão pais em miseráveis ruas de pobreza, de tristeza, de degradação física e espiritual. Alguns não chegarão a idade adulta, uns terão filhos que serão como eles, outros vencerão, são poucos, alguns vencerão. Os que vencerem jamais tirarão de dentro de si o mundo que foi o seu mundo, seguirão com as suas cicatrizes, com as suas feridas abertas, camufladas por sorrisos de enganadoras felicidades. Alguns se tornarão humanos...

Uma assistente social disse "como eles não sabem o que é ter mãe, nos chamam de tia". E eu pensei, como eles não sabem o que é ter mãe, mãe deve ser como uma tia, que lhe dão de comida nas horas certas, põem eles para dormir, fazem tomar banho e abrem as portas da casa para a entrada de pessoas, que assim como eu, entram para lhe dar um pouco de conforto.

Pensar que nas escolas públicas as aulas sobre educação sexual ensinam sobre anticoncepção e não mostram a realidade de filhos de pais despreparados... Propus a uma assistente social um projeto diferente. Receber visitas de estudantes adolescentes a esses centros de recolhimentos e acolhimentos, para eles conhecerem a realidade de gravidez precoces. Não é suficiente dados estatísticos e nem aulas/palestras com Power Point. Os adolescentes precisam sentir o odor desses quartos, onde crianças dormem em lençóis mijados, sobre colchões rasgados e se dão felizes por terem tios para lhe acolherem.

É desumano, em uma nação onde tantos políticos enriquecem roubando sonhos e esperanças, o cheiro emanado dos locais onde vivem estas crianças. Cheiro não somente ácido de urina, de umidade, de catarros escorrendo de narizes inocentes. Há o cheiro apodrecido dos tantos desvios de verbas que impossibilitam uma alimentação digna. Esses centros que se sustentam pedindo, quase esmolando, donativos, parcos donativos, enquanto quadrilhas vestidas de cargos políticos se empanturram de dinheiro faltante para estas crianças.

Felizmente, estas 19 crianças hoje, não estão sob marquises, ainda encontram alguns tios que lhe estendem as mãos e quando estas crianças não tiverem mais idade para serem amparadas por mãos de tios? O que elas serão? O que elas farão? Continuarão com o pensamento de "ser alguém na vida"? E se a vida as pegarem em alguns dos seus desvios e desviarem algumas destas crianças para os atalhos do submundo? Esta mesma sociedade que lhe negam apoio e oportunidade será a sociedade que exigirá da sociedade punição para elas.

É difícil sair de alguns desses centros de acolhimentos sem trazer um pouco deles dentro da gente. É difícil não continuar lá dentro mesmo depois que o portão se fecha e a gente se encontra no mundo cá de fora. É difícil não continuar ouvindo a voz de uma criança, com apenas 8 anos, dizendo...

"Sou filho de pais que não conheço, tenho irmãos que não sei onde estão, eu não quero continuar sendo o que sou, quero ser alguém na vida..."

Será ainda criança esta criança ou a vida já o emancipou e esta criança já tornou adulta, ainda tão criança?





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