A temporada de 1991 da Fórmula 1 começava boa para o atual bicampeão Ayrton Senna. No GP de abertura, novamente disputado nas ruas de Phoenix, nos EUA, nova vitória do brasileiro, assim como foi em 90. E ainda por cima de ponta a ponta.
Chegava a segunda corrida do campeonato, o GP do Brasil em Interlagos. Parecia incrível, mas das 27 vitórias de Senna na carreira até aquela corrida, nenhuma delas foi no Brasil, onde tanto sonhava em vencer. Foi segundo colocado em 1986, com Nelson Piquet como vencedor. Em 88 fora desclassificado por ter pego o carro reserva antes do sinal da organização e em 90 um incidente com Satoru Nakajima o tirou a possibilidade de vencer pela primeira vez em seu país.
Porém uma nova chance surgia no dia 24 de março de 91. Ayrton estava com o carro preparado para buscar a primeira conquista em solo brasileiro. As Williams, diga-se a bem da verdade, pareciam superiores, mas não foi o que mostrou os resultados do treino classificatório e Senna conquistou mais uma pole-position no braço.
Era a quinta pole dele no Brasil. Após a largada, o brasileiro manteve-se na frente, mesmo com a pressão de Nigel Mansell. O inglês chegou a estar colado na caixa de câmbio da Mclaren, mas Senna manteve-se frio e veloz. Como um relógio, repetia os tempos volta a volta, e melhorava quanto maior era a pressão.
O inglês da Williams rodou pouco depois da metade da corrida, e as coisas pareciam facilitadas, pois Patrese, companheiro de Mansell, vinha muito atrás. Mas a Mclaren começou a apresentar problemas mecânicos e Senna foi aos poucos perdendo as marchas, que iam saltando. Perdeu a quarta, depois a quinta, mais tarde a terceira. A sete voltas do final, só entravam a segunda e a sexta, e a vantagem sobre Patrese tinha caído de 46 para incríveis sete segundos!
Senna fixou os olhos no traçado e não viu mais as placas, não deu mais ouvidos ao rádio e desligou os instrumentos do painel. Decidiu que o sonho ia ser realidade finalmente. E foi. Ayrton venceu no Brasil, recebendo a bandeira quadriculada pouco mais de dois segundos à frente de Patrese, debaixo da fina garoa paulistana. Foi possível, a quem assistia pela televisão, acompanhar os gritos de Senna comemorando a vitória dentro do cockpit: "Eu ganhei, ganhei! Não acredito! Finalmente, ganhei!!!" Com espasmo muscular, extremamente desgastado por ter ido além de seu limite físico, ele parou o carro na reta oposta. A multidão ovacionava o seu herói: "Olê, olê, olê, olá, Senna, Senna!!!"
O piloto foi retirado do cockpit pela equipe médica, e no pódio levantou a taça com dificuldade. Ao ouvir o Hino Nacional, pela primeira vez pra ele em seu país, as lágrimas escorriam lentamente por sua face extenuada. Leia agora o depoimento dado pelo próprio brasileiro após a corrida e que foi publicada pela extinta revista Manchete:
"Este é um dia que vai ficar na minha memória por toda a minha vida, com certeza. Foi uma corrida onde tive muitos problemas, a começar pelos pneus. No início o Mansell era mais rápido, mas joguei com ele e deu certo. Quando a quarta marcha pulou fora, foi quase o fim, pois eu tinha que fazer um esforço tremendo. Com isso, além de perder tempo, o desgaste foi muito além do que poderia ser. Comecei a ter dores no pescoço e nos braços. E ainda piorou, pois fiquei sem a quinta e terceira marchas. O motor empurrava o carro para fora nas curvas lentas e eu segurava o carro no braço. Mudei o estilo de guiar para manter o rpm em cima, mas isso me fazia ir mais forte em cima da curva. Quando começou a garoar nas últimas duas voltas, achei que não iria ganhar. Mas foi no grito. E gritei: Vou ganhar porque Ele [Deus] vai me dar essa corrida. Ele é maior que tudo. E Deus me deu essa corrida. Quando você tem a possibilidade de lutar, basta você acreditar que pode. Valeu, torcida do Brasil. Nunca senti calor humano tão forte na minha vida. Essa é para vocês!"