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Nylton Batista

[ Nylton Batista ]
Redator de jornal há cerca de vinte anos. Também escreve contos, alguns dos quais publicados em antologias.

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Arma mortífera

Dizem  que Deus é brasileiro, e deve ser mesmo porque para um país continuar de pé em meio a tantas adversidades, só mesmo com proteção extra-divina, mas, ao que parece, o diabo dá plantão nas ruas, avenidas, rodovias e redobra sua ação, insuflando mais imprudência e irresponsabilidade, especialmente durante os feriados prolongados. Como não consegue derrubar o país com a politicalha, má-administração pública e corrupção, impõe pesados tributos sob a forma de vidas, inocentes, honestas, produtivas e com grande potencial de contribuição ao bem coletivo.
Só mesmo sob influência contrária à vida, jovem de vinte e dois anos, alcoolizado, assume a condução de veículo e, em alta velocidade, passa trafegar na contramão de movimentada avenida. A tragédia que vitimou empresário, pai de família, na madrugada da primeira sexta-feira de fevereiro, em movimentada avenida de Belo Horizonte, não é fato isolado e, se ao seu causador, não pesar a conseqüência do ato, também não será o primeiro a ser privilegiado com a impunidade.
Irresponsabilidade semelhante é comum desde que o automóvel, extrapolando sua função de transportar, converteu-se em símbolo de força e poder nas mãos de cidadãos imaturos, motoristas herdeiros do despreparo com o qual se fez a transição da sela, charrete, carroça e carro-de –bois para o automóvel. Ironicamente, a tragédia aconteceu quando acabava de ser proibida a venda de bebidas alcoólicas, nas rodovias federais, e apresentada pelo governo proposta de endurecimento do Código Brasileiro de Trânsito. A persistência da violência no trânsito tem como causa, a falta de preparo (educação) da população - conforme dito antes - a falta de autoridade na coibição dos abusos, a aplicação da lei conforme qualificação do causador, e a impunidade. A venda de bebida alcoólica já foi proibida às margens das estradas, mas por óbvias razões não funcionou e, a julgar pelas exceções que surgem desde a recente proibição, também não vai funcionar desta vez. É oito ou oitenta; proíbe-se ou não se proíbe!
 É claro que não se bebe somente em estabelecimentos à beira da estrada, mas faltando bebidas nesses locais, boa redução nas ocorrências de embriaguês ao volante pode ser conseguida. E aqui, antes de fiscalização severa, requer-se consciência cidadã e solidariedade humana de quem se estabelece à margem de rodovia porque, indiretamente, uma simples dose de bebida pode estar por trás de grandes tragédias. Não é só questão de burlar a lei, mas de causar mortes, invalidez e muito sofrimento.
Quanto ao volume máximo de bebida, desse ou daquilo tipo, que pode ser ingerida sem comprometer as reações do indivíduo, considero temerária a fixação de limites. Cada pessoa tem seu nível de tolerância à bebida alcoólica e há quem, ficando dentro dos limites considerados seguros, pode ter seus reflexos comprometidos. E essa tolerância pode variar também no mesmo indivíduo, em momentos diversos, conforme a disposição de seu organismo. A lei deve ser de tolerância zero à bebida alcoólica diante do volante! Para provocar grande tragédia no trânsito nem é preciso embriaguês visível, e não se sabe de antemão quais serão as conseqüências da embriaguês, provocada seja pelo máximo ou mínimo de álcool no sangue. E muito menos se pode fixar os danos mínimos de um acidente.
Veículo nas mãos de alguém sob efeito do álcool não é meio de transporte! É arma mortífera!

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