João Augusto morava em uma pequena cidade no interior do Paraná e acabara de se tornar viúvo. Como marido apaixonado que era, ficou arrasado com a perda da mulher que tanto amava e que acabou não resistindo a um câncer de mama. João decidiu então, mudar de vida. Tentar arranjar um bom emprego ficando em sua pequena cidade, de nada adiantaria. Por isso mudou-se para uma cidade maior.
Chegou com a esperança de que dias melhores viriam. Estava empolgado com a chance de conseguir um bom emprego para se realizar profissionalmente. Não precisaria sustentar os filhos, pois estes já eram crescidos, possuíam suas próprias famílias; mas precisaria sustentar a si mesmo. Na vida já trabalhara de tudo, portanto, a função não seria um empecilho.
Observando as ofertas de emprego no jornal local, encontrou uma que lhe parecia interessante. A oferta era para trabalhar em uma chácara, cuidar de plantas, animais, cortar cana, colher verduras, nada que já não tivesse feito antes. Foi com brilho nos olhos que João chegou ao encontro de Sérgio Ramos, dono da propriedade onde necessitava de trabalhadores. A grosso modo parecia ser um sujeito sério, honesto e competente. Porém o tempo fez questão de mostrar o contrário, para desânimo e desespero de João.
Os dias que se sucederam na chácara foram os piores possíveis para o pobre trabalhador. Começava sua rotina de serviços pesados antes das sete da manhã e acabava já ao anoitecer. Comia poucas vezes por dia, isso quando comia! Sem falar nas humilhações, agressões e xingamentos que sofria ao longo das semanas. Semanas cada vez mais longas, custando a passar. João jamais imaginava que poderia sofrer tanto em um emprego, sem ao menos poder fugir daí, pois era constantemente ameaçado de morte. Não podia visitar os parentes, não podia fazer nada a não ser trabalhar. Trabalho escravo, diga-se a bem da verdade. Talvez nem os escravos no tempo do Brasil-Colônia sofriam tanto quanto o pobre João Augusto sofria.
Mas um dia esse sofrimento acabaria. Em um momento de distração de Sérgio, a polícia encontrou o cativeiro onde João era mantido. Através de denúncia feita por um parente próximo a João, foi possível comprovar a gravidade da situação. Por sorte ainda havia tempo de se evitar o pior. O trabalhador encontrava-se trancado em um quarto de madeira, sem janelas. Estava sentado com as mãos segurando os joelhos e a cabeça entre as pernas. Quando a polícia arrombou o local e a claridade iluminou o ambiente, João levantou a cabeça. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
Fora resgatado e levado até um hospital próximo para receber os primeiros socorros. Depois prestou depoimento na delegacia da Polícia Militar da cidade. Sérgio Ramos não foi encontrado no local. Provavelmente está a quilômetros de distância uma hora dessas. Mas João não era uma pessoa vingativa. Não fazia questão que seu ex-patrão (se é que pode chamar alguém assim de patrão) fosse encontrado e preso. A satisfação maior ele já adquiria. Estava diante de seus filhos e outros parentes, pessoas pelas quais nutria grandes sentimentos e que eram de extrema importância em sua humilde vida. Daqui pra frente João gostaria apenas curtir o pouco de vida que ainda lhe resta ao lado dos filhos e os irmãos ainda vivos. Poderia fazer isso sem problema nenhum, pois agora era um homem livre e a liberdade é um direito de todos e não pode ser privada de ninguém!