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Detritos de Gente
Ele ouviu o que parecia ser o som de algum animal a fuçar-lhe o lixo, não que se preocupasse com o lixo, mais ou menos, poderia haver ali, no lixo, um restinho de compromisso, um quer que seja de pessoal, e isso sim poderia comprometer sua inteireza..., hesitou..., ir ou não ir..., sorriu, como quem sorri de uma sorte imprecisa, o quê fazer, o quê pensar... silêncio, o mais sinistro e imaculado silêncio, silêncio esse estraçalhado pelo som do saco sendo rasgado.
- Devo ir? Pensou impaciente, mas e se for ladrão, sua mente nebulosa, e se for ladrão... o que poderia acontecer ao abrir a porta? O que poderia surgir entre o negrume da noite? Isso por que já se fazia tarde, demasiado tarde, pode ser um animal, sorriu, quando visualizou um animal a romper o negro saco, reciclado um milhão de vezes, e encontrando apenas restos de comida, e aparelhos de barbear cegos..., sorriu ao ver o assombroso animal ser surpreendido pela luz da varanda, ampla e arejada, os olhos a parecer duas esferas de vidro negro, envoltos por lágrimas gelatinosas, sorriu, mais e mais ao pensar no animal correndo assustado e afoito, tanto que se houvesse sol, dia, e carros pela via poderia perfeitamente ser atropelado por uma condução.
Abriu a porta, e ao contrário do poema, não viu apenas trevas, e muito menos o animal invernal veredar para dentro de seu aposento de estudos e pousar, seu frondoso corpo, sobre o busto de Palas, não foi isso que viu, como também não ouviu resquícios de hino da bandeira em formas cicloidais, não sentiu o cheiro do inseticida da bomba de flit... não sentiu a lembrança de uma Lenora defunta de si... presa a hostes celestiais, como que pregada numa cruz de cristo mulher e iluminada pela paixão terrena... sua paixão terrena, ao abrir a porta, viu sim os tambores de lixo caídos no passeio, as latas de alumínio reluzindo feito conchas do mar em noite limpa, mas os olhos que viu não foram de um animal qualquer, pelo menos não o animal que imaginou em seu delírio maligno ao segurar firme a maçaneta, o que viu foi uma jovem menina, de uns treze anos, ou mais, ou menos..., branca, porém coberta pela fuligem da vida esquecida que levava, vestidas com os trapilhos que o tempo incansavelmente rasgava a cada passo e respirar de seu raquítico corpo, os pés descalços com unhas emaranhadas como a coroa de cristo, mãos com dedos longos e sem unhas, com calos que lhe deformavam toda, mãos que seguravam um resto de qualquer coisa, pois qualquer coisa para ela tem sabor de boa coisa, e entre a qualquer coisa que devorava afoita, as mãos esqueléticas a esmagar o alimento, irreconhecível, os olhos de esferas de vidro a reluzir a imagem do homem, ou apenas o seu detrito de gente.
escrito sobre os poemas O BICHO e NOTURNO DA RUA DA LAPA de Manuel Bandeira |