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Alessandro Mendonça

[ Alessandro Mendonça ]
Formado em Teologia pela Faculdade Teológica Batista Nacional (DF) em 1997 e ordenado Pastor batista em 1998.

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Esquisitos Quesitos

A Santidade Sacerdotal no Velho Testamento

Texto: Levítico 21:1-24 (Por motivo de espaço decidi não reproduzir o texto. Não deixe de lê-lo na sua Bíblia)

          Ano passado foi lançado nos EUA o livro The Year of Living Biblically, do jornalista A. J. Jacobs. Nele, o autor conta como viveu (ou tentou viver) literalmente todas as mais de 700 regras prescritas em toda Bíblia. Provavelmente ninguém comprará o livro para saber como é viver amando o próximo, dando a outra face ao inimigo e repartindo tudo. O interessante é a aparente falta de sentido em algumas regras comportamentais e em punições extremas como amputações e apedrejamentos.

          O capítulo 21 do livro de Levítico também fala de esquisitices. Especificamente sobre quesitos que deviam ser observados pelos sacerdotes e pelo Sumo Sacerdote de Israel. Tratam-se de prescrições estranhas. Por que Deus se importaria com isso? Era tão importante assim?

          A primeira questão a ser observada e, provavelmente, a chave para a compreensão desse texto é que as proibições e restrições impostas aos sacerdotes não eram à coisas “pecaminosas” e sim à coisas “comuns” – aquilo que outros podiam fazer, comer, usar; lugares que podiam freqüentar, mas que não eram permitidos a um sacerdote ou sumo sacerdote – Por quê essa “diferença”?

As restrições tinham a ver com o conceito de SANTIDADE. O conceito vétero-testamentário de santidade continha as idéias de separação e consagração. Os sacerdotes eram representantes de Deus ante os homens, e dos homens diante de Deus. Eram pessoas “separadas” da gente comum. As restrições a que eram submetidos enfatizavam essa separação. Isso não é tão estranho para nós ocidentais do século XXI. Basta você se lembrar de alguma festinha de aniversário onde pediu ao anfitrião para “preparar um pratinho” para você levar para alguém. O que ocorre nessas situações? O dono da festa “separa” alguns quitutes geralmente colocando-os em um prato “diferente”. Todos os salgados e doces de uma festa são para todos os convidados da festa, exceto aqueles que foram “retirados” e “reservados especificamente” para alguém. Tomamos medidas para “diferenciar” aqueles doces e salgados dos demais. Da mesma forma Deus separava seus ministros. E a separação não consistia em que eles deviam “pecar menos”.  Deus não tem uma lista de pecados separada para cada “classe” de pessoas. A Lei Divina vale para todos. Igualmente. Pecado é pecado tanto para o religioso não praticante, quanto para o agnóstico ou para o fiel observador da Lei. Pecado é algo que ofende a Deus. Venha de quem vier. Então o sacerdote, para “demonstrar” sua separação, abstinha-se de coisas que eram lícitas a qualquer outro. Eis o primeiro aspecto do conceito da “santidade sacerdotal”: Santidade como diferença. Diferença do que é comum, usual, corriqueiro, ordinário. O Deus de Israel era incomum e extraordinário. E Seus sacerdotes deviam representar isso.

          Um outro aspecto do conceito da santidade é relacionado ao “significado”. Santificar é dar às coisas, momentos e locais significados e sentidos que eles não possuem normalmente. Um anel de noivado é uma jóia bastante comum. Exceto para os noivos. Para eles é “especial”. No momento em que foi retirado da loja e colocado nas mãos dos noivos deixou de ser uma mercadoria. Ganhou significado. Tornou-se um “símbolo” de amor e comprometimento. Ao mesmo tempo seu uso também tornou-se “restrito”. Não pode ser usado por outras pessoas, não deve ser retirado do dedo, não deve ser usado como peça de ornamentação apenas, não pode mais ser vendido. Em certo sentido, tornou-se “sagrado”.

          Lugares comuns como um restaurante, um jardim ou um banco de praça podem ter um significado especial para você. Aquele objeto que você guarda com carinho, aquela pétala seca de uma rosa que você ganhou ou o papel amassado que um dia embrulhou um bombom ganho de alguém especial. Coisas comuns com significados incomuns. Por serem especiais são guardadas, tem seu uso restrito (ou sequer são usadas para não se desgastarem), não são vistas por qualquer um, não são mais “usadas” para seus propósitos originais. Adquiriram o que chamamos de transcendência. São “mais do que aparentam ser”. Nós humanos fazemos isso freqüentemente, mas estranhamos que Deus também o faça com as pessoas que escolhe.

           Santidade tem a ver com “possuir um sentido além” - Os atos do sacerdote se “revestiam” de um sentido divino. O sacerdote carregava a imagem do próprio Deus. As “esquisitices” ressaltavam as diferenças, ilustravam o contraste entre nossa posição e a posição divina. Em contraste com o nosso tempo, onde as coisas (e até pessoas) são descartáveis, aquela época e aqueles esquisitos quesitos nos mostram que a santificação faz com que “coisas” deixam de ser coisas para se tornarem “símbolos” e que ser santo é mais do que “ser” apenas.

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