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Universidade Pública Visita Comunidade Carente
Artigo/Opinião: A Universidade Pública Vai até Onde o Povo Está “A racionalidade orienta mas não move. Aciência ilumina mas não sacia. O progresso tecnológico acelera o tempo e abre o lequemas não delibera rumos e nem escolhe fins.Eduardo Gianneti Como na balada popular de Milton Nascimento que diz que o verdadeiro artista vai até onde o povo está, um dia uma Professora-Doutora da USP algo visionária e certamente embasada pelo princípio ético-plural-comunitário que funda a tese de um humanismo de resultados, deixou todo o aparato acadêmico-universitário e com projetos claros foi para a abandonada periferia carente dessa São Paulo“ da força da grana que ergue e destrói coisas belas”, como cantou Caetano Veloso, in Sampa, e, pondo compromissados orientandos no campo real para captações de informações nuas e cruas foi em busca de pesquisas, de focos sociais (ah a nossa impaga dívida social desde 1964 e passando pelo seqüestro desse sonho por um uspiano também que depois virou ex-sociólogo, ex-marxista e ex-ateu!), e assim deu viço a uma gama de conhecimentos que mostram a dura realidade de uma escola pública (e o pesado sucateamento das políticas públicas nessa área), de uma comunidade perdida e carente, de um corpo docente entre a falência social, o desmonte suspeitamente açodado do Estado (o estado mínimo do modelo neoliberal substituído pelo quinto poder do contrabando informal mais a impunidade generalizada e a violência por atacado), e, no flanco das buscas, do conhecimento específico, no varejo colheu frutos e flores. E problemas, claro. Porque uma pesquisa não é meramente numeral ou letral, nem tem o frio foco das estatísticas, mas, acima de tudo, trabalha com recursos humanos, material humano, logo, ser humano, com direitos, deveres, preocupações - ai de ti globalização – e, enquanto a universidade pública vai até o onde a dura realidade está, realidade humana, demasiada humana, também a realidade cruel mostra a sua cara, a clientela com suas culturas juvenis mantêm um contestador grito parado no ar (hip-hop, rock, forró, pivetes pichando, pequenas infrações, etc.) e os assustados professores no olho desse mesmo furacão (a nova ordem econômica mundial) mostram as páginas de rostos no difícil dia-a-dia da regência, em que o professor além do desvio de função no assistencialismo imediatista (político-eleitoreiro) tem que ser psicólogo, policial, vigia, assistente social, conciliador, pai-referencial, mãe de rejeitos sócio-familiares, tiofessor, profetio, e, às vezes nem mesmo se sustentando em saber o próprio Ensinar propriamente dito a que se destina, até porque ensinar é ensinar a pensar. Lições de percursos. Pior é quando essa mesma acadêmica doutora visionária, no caso, a Professora-Doutora Mônica do Amaral, com sua febre de mudar, com seus sonhos limpos, determinados entre a teoria e a prática, depara com a burocracia que além de emperrar a máquina estatal já capengando, ainda sofre com a falta de estrutura técnico-administrativa-funcional da unidade escolar que sacrifica todo o entorno onde a escola é uma espécie de clube possível, um social respiradouro mesmo das carências múltiplas dessa abandonada periferia sociedade anônima. A realidade dói. A realidade pesquisada revela a face cruel desses tempos tenebrosos em que o aluno sofrendo o viés midiático de um consumismo-cão, também está entre o ser criança, ou quase isso, o ser adolescente, ou quase isso, e ser adulto, ou quase isso, e por isso mesmo querer ter posses, quer ter poder, querer ter autoridade-identidade na formação em travessia de sua persona em um ser na base do “quase”. Num momento em que há viabilidade de alta verba federal a ser destinada para a educação pública, os tachados amigos da escola que muita das vezes são amigos do alheio querendo verbas públicas em antros privados, bancados por escopos estatísticos da educação, não humanos da educação, a mídia estranhamente carrega nas críticas rastaquaras, reportagens-quase-investigações-policiais para mal-e-mal detectarem en passant e sem conhecimento profundo da área os resultados fracos e frágeis dos alunos enquanto cidadãos mal instruídos, com aprendizados parcos, perdidos que realmente estão os jovens também, pois já têm consciência de que, a escola que antes era tudo, degrau para o alto, só ela por si mesma não sustém sonho nenhum, há outras vias, há um risco concorrencial no mercado de trabalho e, assim, a autoridade do professor deixa de ter circunstancial e em face disso tudo, deixa de ser a antiga e funcional autoridade mesmo, restando um vazio difícil de se administrar. A universidade pública vai até onde o povo está, sente a barra pesada da escola, colhe informações, e ainda a escola com suas carências estruturais também. Não é fácil. Porque é muito bom você dizer que a escola é chata, o professor é desprovido de modernos recursos didáticos-pedagogicos para o processo ensino-aprendizagem, quando você “pensa” isso, reflete e raciocina isso mesmo que num pequeno ensaio acadêmico, no bem-bom de um gabinete, altamente remunerado, cabeça fria, quando na escola, por assim dizer, o bicho pega, a realidade é outra, o professor na verdade está ali quase que na docência que cobra uma inclusão social, um letramento e cada sala de aula, enquanto às vezes cela de aula, é quase uma micro-febem em que o professor sofre, labuta, tenta, rebola, sofre, é constrangido, mas os chamados “recursos humanos” (clientela escolar) são frutos de amorais e inumanos planos econômicos, de mudanças que não mudam nada (mas dão vernizes novos a erros políticos velhos da velha burguesia), e assim a pirâmide de valores e hierarquias internas desmoronam, caem por terra. Porque uma coisa é pensar a realidade fora do contexto, uma outra é morar na filosofia diuturna do meio escolar, estar dentro do problema, ver a realidade com outros olhos, pensar essa realidade então com necessário conhecimento de causa. Os jovens estão perdidos? E sabem que os professores também estão inseguros, sentem isso, captam isso, e, claro, usam isso. E para atrapalhar, faltam professores, professores adoecem, acumulam cargos, funções e afazeres, acabam por arrumando “bicos” de sobrevivência emergencial que possam prover o salário baixo (não há uma ONG de Direitos Humanos dos Professores?) e lá se vê na escola o professor sofrido, com parcos recursos, tentando sobreviver vendendo Avon, lingerie, artesanato, livros, consórcio, e tudo mais. A quem interessa uma escola falha? À equipe educacional não. Então porque a mídia ás vezes leviana ataca só o professor, quando todas as carreiras públicas têm problemas? A policia, por exemplo, apura só 16% dos crimes. E ninguém fala da falência da segurança púbica quando um policial fica doente ou fazem acordos espúrios com o PCC. A saúde pública está um caos. E ninguém ataca o problema, por que na verdade há um interesse de venda de previdência privada correndo por fora, planos de saúde de banqueiros e agiotas do capital estrangeiro querendo atacar o flanco da falência dos estados calamitosos da saúde? A dengue e a tuberculose estão voltando. E os médicos não são sacrificados diretamente por isso. Alunos sem saber, com a tal progressão continuada falha (aprovação imediata, sem provas escolares, sistema imposto de cima pra baixo) e um juridicamente falho Estatuto da Criança e do Adolescente blindando sanções sócio-familiares, e os professores devem ser crucificados, os professores são os únicos culpados? Serge Lerouard diz que cada sociedade tem a delinqüência que ela gera. Devagar com o andor que o professor é de carne e osso. O que há por trás disso. Pois a USP agora está numa escola na zona sul de São Paulo, bem ali, entre mansões, palácios, e, num contraste social os cortiços, guetos, favelas, bocas de fumo, tudo somado a lucros impunes, riquezas injustas, propriedades-roubos. Isso quer dizer alguma coisa? A história é remorso, cantou Drumond. Deve ser isso. Um patrão insensível, empresário beneficiado com as tais privatizações-roubos (privatarias) de São Paulo, que mora no Morumbi, gastando muito mais grana com seus cães de raça, suas câmaras e satélites de vigilância do que com os recursos humanos de seus pobres vigias, suas humildes serviçais domésticas compondo tanta pompa com suas carências de filhos carentes em escolas públicas carentes de professores carentes. Esse é o quadro inteiro. A escola pública na verdade bem ou mal recebe os rejeitos sociais, os filhos abandonados de lares abandonados, os filhos frágeis de estruturas sociais fragilizadas, os órfãos do Plano Real que gerou milhões de desempregos, trocou a grana do Brasil pau a pau pelo dólar, para depois não valer nada, e a mídia ainda diz que o plano foi um sucesso. Um sucesso? Pra quem? A seqüela disso também explode na escola. E sobra pro professor. E o professor que se vire, que se arranje. Se não for um super-qualquer-coisa, pegando um aluno querendo ser um quase ser, ter uma quase identidade (que a família não lhe dá porque não tem suporte para dar) fica toda a culpa com ele, o professor, ele deve ser penalizado. E isso no estado mais rico da nação. Quem está querendo enganar a quem? Então a professora acadêmica da USP visionaria dentro da escola, vê o problema por diversos ângulos, compreende a relação professor-aluno e a relação professor-escola com prismas e matizes diferentes do que o acadêmico alheio à realidade sente e vê ou pensa sem sentir e viver na pele, na carne. A escola falha em sua estrutura que deveria ser dinâmica e abrangente, tem professores gabaritados mas também em seu bojo de serviços menores tem a terceirização neoescravista que assusta e comove, tem interesses escusos interferindo na rotina cotidiana do dia a dia, tem professores à beira de um ataque de nervos, têm filhos sem a autoridade dos pais que rejeitam a autoridade do professor, tem a escola assistencialista que fornece de tênis a material escolar, agasalho e comida mas não cobra o crivo de uma avaliação regimental oficial mesmo que de cima pra baixo, tem uma escola que passa sem saber mas com o interesse de ser beneficiada pelo bônus anual (enquanto na verdade subornus para enganar a incautos), a falta da escola que tínhamos antigamente, professor ganhando igual juiz, dentista e psicólogo na escola, sanções e cobranças com responsabilidade, biblioteca e supervisão em cima só preocupada com o fito educacional, e ainda filosofia, sociologia, francês ou latim, redação, língua portuguesa, literatura brasileira e literatura portuguesa em conceitos distintos, matérias com quilate de conteúdo. Que escola tínhamos? Que escola queremos? O desmonte da escola pública vai gerar milhões de lucros para suspeitas entidades privadas e suspeitos e incompetentes (e impunes) ex-secretários, ex-ministros, pensadores rasos, teóricos da educação despossuídos de conhecimento prático, políticos fazendo média com planilhas e estatísticas de fóruns mundiais, curiosos sem conhecimentos de causas e efeitos, e atravessadores que, quando no poder, não fizeram nada, não mudaram nada, e agora querem criticar de fora o que não mudaram lá dentro? Essa dubiedade é cínica de uma sociedade hipócrita entre a dicotomia do que pregam agora e do que desmontaram dentro, com fins escusos. A verdade dói. A quem interessa o desmonte do estado já sucateado, para um estado mínimo? Enquanto lecionar é sim uma missão e também porque não dizer uma grande rebeldia, há também, claro, pessoas erradas na área errada, ditatoriais, disfuncionais, pois quando um professor desiste de tentar mudar a escola, desiste de encampar uma classe para mudá-la para melhor, está cansado de dar murro em ponta de faca porque a clientela escolar a cada ano letivo é mais sofrível, esses profissionais certamente seriam muito mais felizes em outra área, do que estarem entre colegas compromissados, pois atravancam de alguma maneira a resistência em nome daquele que lutam por menos alunos em sala de aula (salas superlotadas), por uma melhor e honesta remuneração salarial, por otimizada estrutura sócio-escolar, que, é sim, o que funda a real seleção para a escola e, por conseqüência o que o professor fará do que estão tentando fazer dele, por insanas improbidades palaciais e mídias político-eleitoreiras. O problema da educação na verdade é grave problema de gestão nesse campo: políticos incompetentes que desviam dinheiro da área para fins escusos, contando com a presumível imunidade do cargo e uma impunidade a partir da própria relação promíscua da justiça com governantes que colocam máfias e quadrilhas (do nosso selvagem capitalhordismo americanalhado) para governarem os governos, além de alguns omissos promotores também suspeitamente coniventes de ocasião ou cegos de propósito visando promoções atreladas, do meio. Que a Universidade Pública na escola faça uma avaliação de como tudo na verdade funciona, faça uma espécie de auditoria entre o que é real e o que é inverdade, entre o que a escola tem e o que a escola precisa, entre o que é falha do professor e falha do sistema mesmo, entre o que é falta de conteúdo e falta de avaliação que avalie realmente o aluno, entre o que é apregoado pelos meios de comunicação e o que arrebenta na relação professor-aluno, autoridade professoral, e o que são carências que, frutos de modelos econômicos sempre estouram abruptamente na escola, sobrando para o professor tentar refazer o que é impossível só em sala de aula, em tentar mudar na escola o que veio terrivelmente diferenciado a cada ano além do associacionismo extra-lar, e, entre o papel dele e o sacrifício dele que arca com todas as culpas quando a clientela é fruto de seqüelas sociais que ele, o Mestre, nem se fosse superdotado, poderia resolver. Porque é muito fácil falar em políticas neoliberais na Europa, onde incompetentes e corruptos vão presos, e tentar implantar aqui o estado mínimo se nunca o tivemos deveras funcional, transparente e perfeito. Quando a Universidade Pública vai a escola, pode se esperar um pouco mais de qualidade no diálogo e na solução do impasse como um todo, afinal, o sonho ainda viça, é esse o sonho a nossa bandeira: escola pública de qualidade. Walter Benjamim diz que só devassamos o mistério na medida em que o encontramos no cotidiano. Quem ataca o professor, certamente já precisou de um para ser o que é. E isso quer dizer muita coisa. A Escola só se reconstrói com o universo que cada um tem em si mesmo e com o conhecimento que tem da verdadeira realidade localizada. |