A exemplo da natureza que, de vez em quando, se revolta e produz chacoalhadas do tipo tsunami e outros fenômenos mais ou menos da mesma intensidade devastadora, um tornado passa pelo mundo financeiro, em escala global, levando pânico e insegurança aos mercados representados pelas bolsa de valores. Mesmo sem entender com profundidade os segredos da economia, bem como seus desvios por tretas e mutretas ditadas pela ganância e poder que o dinheiro alimenta, o cidadão mediano percebe que, por trás de tudo, está a irresponsabilidade de pessoas e instituições às quais estavam confiados mecanismos de gestão de negócios em larga escala.
Traduzindo para o pequeno mundo, a crise é conseqüência de gigantesca expectativa de lucro, tendo como foco o mercado imobiliário e adquirentes que, desejando que a lua fosse queijo, assumiram compromissos sem ter capacidade para honrá-los. Em busca da prosperidade e em detrimento do trabalho, abusou-se da liberalidade nos negócios. O resultado é que todo o mundo está a dançar; quem está dentro e quem está fora do baile! Todos estão sendo intimados a pagar a conta. Socializam-se então os prejuízos, para o bem geral da pilantragem!
O estrago é tão grande que os líderes mundiais acenam com profundas reformas no sistema financeiro internacional, a começar pela aceitação da intervenção do estado - heresia capitalista - no mercado! Segundo analistas e outros ditos entendidos do mercado financeiro, a crise é o fim de uma era e início de outra nos domínios do poder econômico.
Decidido desde já pela mudança de regras na área financeira internacional, outro olhar deveria também se voltar para a formação do cidadão, considerando que melhor andam negócios quando ética há da parte de quem os conduz, ainda que regras rígidas não existam a tolher os movimentos do indivíduo.
Queiram ou não, o homem (espécie) é anjo e demônio a um só tempo, prevalecendo uma ou outra face, de acordo com influências recebidas em seu ambiente. O “laissez-faire” (deixe fazer), sem repressões, adotado na educação e formação do indivíduo, não poderia dar resultado diferente do que a sociedade vem obtendo, à medida que esse mesmo indivíduo interage dentro da coletividade sem qualquer censor interno em relação aos seus atos. Se não há preparo prévio, é muito mais fácil ser individualista, voltando-se contra todas as regras, do que ser sociável, ou seja, viver em consenso com a coletividade. Daí para o banditismo declarado ou o enrustido (do colarinho branco), dependendo da posição na pirâmide social, é um passo.
No momento em que pais renunciaram à autoridade sobre os filhos e foi tirada a do professor sobre os alunos, iniciou-se o processo da inversão de valores, a escalada da delinqüência infanto-juvenil e da violência generalizada. Há que se restabelecer o mínimo da autoridade familiar, perdida em meio à discussão de muitas tolices e estendê-la à escola, para que esta cumpra sua função de burilar futuros cidadãos. Pais alheios ao que fazem os filhos, cada vez mais ausentes no processo de sua formação e, na maioria das vezes, reféns de suas vontades, são seus parceiros por antecipação na criminalidade, na qual poderão ingressar. Professores desrespeitados e agredidos, colegas assediados, seduzidos ou aliciados para o delito mediante ameaças, escolas destruídas e tornadas em espécie de casa de terror são prenúncios de uma sociedade desumana em gestação.
Para tudo há limites e mesmo na natureza, há resposta ou preço para quem a contraria, não importando a condição desta, por mais cruel isso possa parecer. Se a criança estende a mão sobre a chama da vela, a queimadura é a resposta ao seu gesto. Na mesma proporção, independentemente da idade, quem contraria regras estabelecidas não pode estar imune a corretivos.
Melhor as lágrimas na infância, em decorrência de palmadas como corretivo do que, mais tarde, o sangue derramado na rua como resultante do desvio de conduta.