A primeira coisa que perguntei ao atendente da locadora a respeito desse filme foi:
- É para crianças?
Ele riu e apressou-se em esclarecer:
- Longe disso, o filme é ótimo.
Fiquei em dúvida. Havia lido alguma coisa a respeito e eram elogios de revistas que nem sempre combinam com o meu gosto. E eis uma das encruzilhadas da crítica: nem sempre o gosto do crítico combina com o nosso.
Como cinéfilo, vi-me no meio de um embate: levar ou não para casa. O passo seguinte, ao colher um filme na prateleira é procurar a lista de atores na busca de alguém conhecido, como se a presença de uma estrela pudesse salvar um filme ruim. Não havia ninguém que eu conhecesse. Olhei para o sujeito que sorria atrás do seu par de óculos e li o nome do diretor: Guillhermo Del Toro. Não tive mais dúvida: levei o Labirinto esperando não me perder em suas entranhas. Temos sempre a ilusão de que um bom artista salvará um filme: grande engano. Já levei artistas famosos que decepcionaram com participações que não vale a pena mencionar.
O filme foi-se revelando aos poucos, como convém aos clássicos. A impecável cinematografia, o retrato de uma época sombria da Espanha (o tenebroso período fascista do generalíssimo Franco causa tremor e uma das cenas de tortura... melhor não contar), o envolvimento gradativo com o universo das personagens, tudo isso nos faz deliciar o filme quadro a quadro, como se fosse o agradável virar de páginas de um livro excitante que não conseguimos deixar de folhear.
Poucos filmes causam o impacto que o excelente diretor MEXICANO, conseguiu transmitir. Acredito ser uma daquelas obras em que o mesmo termina, senta-se para relaxar em uma poltrona, abre um bom vinho (pode ser champangne), sente o aroma subir pelo ar e exclama: dificilmente farei algo melhor depois disso!
A obra, entretanto, apesar de agraciada pela crítica não atingiu o gosto popular. Não se tornou algo que as pessoas comentassem nos bares e esquinas. Grande injustiça! Seria pela ausência de atores famosos que, nesse particular, não fizeram a menor falta visto o elenco ser de primeira? É provável. Ou o estigma de Del Touro ao produzir o lamentável Blade tenha causado em alguns certa repulsa? Difícil responder.
Caso Del Toro nunca mais, de fato, produza algo relevante para o cinema, o que eu duvido, pode deitar em louros sobre essa sua película: o filme vale o preço de muitos ingressos ou o valor da locação exponencialmente multiplicado.
Em uma entrevista ao canal TNT a respeito do filme, Del Toro afirma que muitas das personagens incríveis (e acrescente-se incrível nisso) que desfilam por seu filme nasceram de sonhos (não queira estar nos sonhos desse artista). Diz ainda que é um indivíduo extremamente anti-social, que não gosta de festas ou compromissos em que se veja cercado de pessoas. Realiza-se em produzir e em criar. Nota-se ser um artista que se entrega de corpo e alma ao trabalho.
À medida que o universo da personagem principal Ofélia (Ivana Baquero), uma menina de 10 anos apaixonada por livros fantásticos, se revela, passa-se a torcer para que a fantasia seja realidade – e talvez fosse. Gosto em minhas críticas de contar um pouco do filme, mas dizer qualquer coisa ao leitor seria tirar-lhe o prazer da surpresa e de experimentar viver todas aquelas sensações. Somente um detalhe: o Fauno é interpretado pelo mímico Doug Jones) e a atuação merecia um Oscar. Completa-se o elenco principal: Carmen (Ariadne Gil), mãe de Ofélia que se casa com o capitão Vidal (Sergi Lopez) das forças de franco cuja atuação merece aplausos calorosos em pé (podia ser outro Oscar).
Não encontrei pontos falhos na obra e mergulhei na narrativa. Abra as asas da imaginação e permita que o filme o conduza, inocentemente, como fez com a jovem Ofélia.
Trata-se de um filme imperdível? Sem dúvida.
A película merece nota dez? Impossível atribuir menos.
Devo comprar pipoca e guaraná? O filme transcende a característica de simples diversão – é um programa cultural.
Quem vai apreciar mais? Se você gostou de Hellboy (do próprio Del Toro), Sexto-Sentido, Seven, O Iluminado, Crônicas de Nárnia, poderá assistir sem medo e, se não gostou, assista assim mesmo.