Meu telefone toca. São 06:45. Acordo assustado e logo percebo que a voz que ecoa do outro lado é de minha mãe. Coração vem à boca. De certo não será boa notícia. Fico sabendo que o filho de um primo, quase irmão, foi levado ao Pronto Socorro às pressas. Com as pernas bambas e o pensamento elevado a Deus, me levando rapidamente. O caminho até a Santa Casa nunca foi tão longo.
Ao chegar não encontro meu primo. Meu telefone toca outra vez. É ele! “Irmão, estou indo à procura do médico. O Moisés não está bem”. Fim da ligação. As poucas forças das pernas tinham se exaurido.
Moisés. Seu nome de origem bíblica significa “O Que Dá a Luz”. E aquela criança de 4 anos de idade era assim. Irradiava alegria por onde passava. Seu sorriso era fácil e meigo. Era gentil e dócil, amável e fraterno.
Meu telefone toca outra vez. Era a notícia que eu nunca esperava ouvir na minha vida. Ele, Moisés, havia sido levado para o lado de Deus. O que dizer? O que fazer? São alguns segundos da vida que parecem eternidade. Parece não existir chão, nem ar. Um sufocamento inexplicável que não desejo a ninguém. A minha dor foi incontrolável. Queria poder receber mais um pouco de dor, para tirar do peito do meu primo/irmão. Os acontecimentos a seguir só me sufocavam mais. Cada momento lembrando daquele amor de pessoa, daquela criaturazinha de Deus, tão parecida com meu filho... Massacre ao coração.
Os passos adiante eram difíceis. Mas tinham que ser dados. Uma cidade inteira comovida e preocupada, sem saber a causa do falecimento. Os momentos tristes de choro e lágrima, em mim, são então substituídos, incessantemente, pela imagem do sorriso e da caridade de Moisés. Momentos de intenso orgulho ao ver (na memória) meu filho e ele brincando.
A dor dos pais só não foi maior porque eles sabem da existência de um Deus superior, que buscou Moisés e sua bondade para o Reino dos Céus. Não foi maior também que a gratidão aos médicos que atenderam a criança. Esses mesmos médicos que ficaram chocados com a morte repentina do garoto. Acompanhei todos os passos e não faltou nada a Moisés. Tudo o que foi possível foi feito.
Olho para o céu à noite e imagino que ele é estrela mais brilhante do oceano de luz. Moisés, como na história bíblica, para mim não morreu... Ele está sentado ao lado do Deus Pai, abrindo um mar de esperança e de alegria a quem necessita. E quando eu olhar para a foto em que eu estou ao seu lado só terei lindas recordações.
Ps: Esse artigo não foi fácil de ser escrito. A emoção é muito forte. Mas teve de ser pelo amor que tenho ao meu primo/irmão Elly, e à admiração que tenho da mãe de Moisés, Aninha. Vocês merecem, são guerreiros de alma e coração. Com vocês aprendi que todos os problemas são minúsculos perto do amor de Deus. Obrigado!